domingo, 3 de setembro de 2017

O fundamento da espiritualidade


Por Rafael de Lima

“Qual o fundamento da espiritualidade? ”, se lançarmos mão desta pergunta é possível que obtenhamos um variado número de respostas. Quem sabe alguém nos diga que o fundamento da espiritualidade é a oração, outro que este fundamento seja a boa teologia, um terceiro que seja a atividade missionária e, mais algum, que seja o serviço cristão (certamente essa lista poderia ser acrescida de outros itens). Quem negaria que oração, boa doutrina, atividade missionária e serviço cristão, não sejam elementos de destaque na vida de piedade de um cristão? Absolutamente ninguém! Mas, deixe-me colocar da seguinte forma: é possível que oração, boa doutrina, atividade missionária e serviço cristão sejam não exemplos de piedade, mas de iniquidade.

Em seu mais famoso sermão, Jesus condena veementemente a oração hipócrita: "E quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros. Eu lhes asseguro que eles já receberam sua plena recompensa”. (Mt 6.5 – NVI); Tiago nos adverte em relação a possuirmos uma teologia divorciada da vida, uma doutrina distante da piedade, possuirmos uma ortodoxia morta: “Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos”. (Tg 1.22 – NVI); Paulo, quando escrevia aos cristãos de Filipos, afirma que muitos pregavam por motivos errados: “É verdade que alguns pregam a Cristo por inveja e rivalidade, mas outros o fazem de boa vontade. [...] Aqueles pregam a Cristo por ambição egoísta, sem sinceridade, pensando que me podem causar sofrimento enquanto estou preso”. (Fl 1.15,17 – NVI); Jesus, novamente, condena o serviço realizado com motivação errada: "Tenham o cuidado de não praticar suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isso, vocês não terão nenhuma recompensa do Pai celestial. Portanto, quando você der esmola, não anuncie isso com trombetas, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem honrados pelos outros. Eu lhes garanto que eles já receberam sua plena recompensa”. (Mt 6.1,2 – NVI). Essas são apenas algumas referências, é possível encontrar outras nas Escrituras.

Eu consigo enxergar nesses exemplos sempre uma raiz de orgulho, de autopromoção, de autoelogio. Eu posso orar de forma que os outros vejam quão grande intercessor eu sou, que olhem para mim e concluam: “este é um grande homem de oração”, e isto pode me trazer satisfação; eu posso evangelizar para que os outros vejam que sou um grande missionário e reconheçam isso; posso servir para que os outros enxerguem o meu trabalho; posso apresentar meus pressupostos teológicos para que os outros vejam quão pura é minha doutrina, quão ortodoxa é a minha mensagem. No âmago de tudo, nas reais motivações, serão encontrados o erro e a transgressão.

Por que elementos tão sublimes como oração, doutrina, evangelização e serviço, se transformaram, inesperadamente, em iniquidade? A resposta é: porque faltou-lhes aquela parte que é o fundamento, a base, o alicerce, faltou-lhes pobreza de espírito.

Essa é a simples proposição deste texto: o fundamento da espiritualidade é a pobreza de espírito. Perceba que este não é simplesmente um trocadilho de palavras, antes é um conceito fundado nas Escrituras. Sobre ele pretendo me ater um pouco a partir daqui.

Certamente vocês sabem que esta assertiva do Mestre inaugura o mais famoso sermão de todos os tempos – o Sermão do Monte. Ele nos ensina: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus”. (Mt 5.3 – ARC). É necessário, antes de tudo, esclarecer alguns equívocos que comumente surgem quando nos deparamos com o Sermão do Monte de Jesus e, com precisão, o comentarista Warren Wiersbe sintetiza:

O sermão do monte é de todas as mensagens de Jesus a mais mal interpretada. Uns dizem que é o plano de salvação de Deus e que, se desejamos ir para o céu um dia, devemos obedecer a suas regras. Outros o chamam de "tratado em prol da paz mundial" e instam as nações da Terra a aceitá-lo com o tal. Outros, ainda, dizem que o sermão do monte não se aplica aos dias de hoje, mas que valerá para um tempo futuro, talvez durante a tribulação ou no reino milenar.[1]

Todavia, a grande verdade que concluímos a partir do exame deste sermão de Jesus é que os bem-aventurados são os que foram regenerados. Essa lista não se aplica, sob nenhum aspecto, aos incrédulos, ainda que estes possam ser exemplo de moralidade e honestidade. As bem-aventuranças não são, absolutamente, um conjunto de regras que as pessoas possam seguir para tornar o mundo um lugar melhor. Do mesmo modo, elas não são uma realidade que terá cumprimento num futuro reino ainda a ser estabelecido. Não! As bem-aventuranças são uma realidade presente. Não são uma lista de prescrições a serem cumpridas. São, antes, uma lista de características dos que foram justificados pelo sangue do Cordeiro. Isso não é o que nós seremos, mas o que nós somos: bem-aventurados!

Feito esse esclarecimento inicial vejamos o que podemos aprender desta primeira beatitude. Preliminarmente, voltemos a atenção para a expressão “bem-aventurado”.

As bem-aventuranças não são simplesmente afirmações de felicidade, elas são, na verdade, empolgadas exclamações: "Que feliz é...!"; "Mais do que feliz...!"; "Como é feliz...!". Essa felicidade não diz respeito a algo que ainda acontecerá, que terá seu cumprimento num futuro distante. Ao contrário, essa felicidade cumpre-se, neste momento, na vida dos regenerados. Isto é uma realidade nas nossas vidas, não uma possibilidade! E o centro de onde emana essa alegria não tem relação com coisas, circunstâncias ou momentos; antes diz respeito a uma pessoa – Jesus Cristo!

As bem-aventuranças, com efeito, dizem: "Que felicidade é ser cristão! Que alegria seguir a Cristo! Que alegria conhecer a Jesus como Mestre, Salvador e Senhor!" A forma mesma das bem-aventuranças nos indicam que são exclamações de gozosa surpresa e radiante felicidade pela realidade da vida cristã. Em face das bem-aventuranças se faz impossível toda interpretação do cristianismo como uma religião triste e carente de entusiasmo contente.[2]

Em grego, bem-aventurado, é a palavra makários. Barclay destaca que makários diz respeito a uma alegria autossuficiente, que não é atingida pelas eventualidades da vida. Para os que não conhecem aquele que é a fonte real de alegria – Jesus Cristo – a felicidade vai resultar de certos momentos efêmeros da vida, que vão e voltam, que são hoje e amanhã não mais. A felicidade daqueles que estão em Cristo é independente de qualquer circunstância que a vida possa trazer à tona.

As bem-aventuranças nos falam dessa alegria que sai a nosso encontro até no meio da dor, aquela alegria que não podem manchar nem o sofrimento, nem a tristeza, nem o desamparo, nem a perda de algo ou alguém que queremos muito. É a alegria que brilha através das lágrimas e que nada, nem na vida nem na morte, pode arrebatar.[3]

Nada nem ninguém poderá arrancá-la de nós, e por quê? Porque a nossa alegria é Ele! E quem poderá nos separar (Rm 8.29-39)?

Dito isto, avancemos um pouco mais nesta beatitude. O que se segue a esta primeira exclamação de felicidade: “Como é feliz...!”, não poderia ser mais desconcertante ao mundo. É mais do que feliz não o próspero, não o saudável, não o que alcançou sucesso, não o poderoso, não! Como é feliz o pobre de espírito! Que distância entre a felicidade do mundo e a que Cristo oferece!   

            Quando nós analisamos mais minunciosamente a palavra em grego, se torna ainda mais evidente essa distinção. Em grego existem duas palavras que vão caracterizar a pobreza. A primeira palavra é penés. Ela diz respeito ao trabalhador, aquele que tem apenas o necessário, ele não é rico, não tem nada de supérfluo, mas não lhe falta o essencial para sobreviver (seria o caso de muitos de nós). Todavia, não é esta a palavra que aparece na passagem. A palavra grega empregada neste texto é ptojós, que vai caracterizar uma pobreza completa, absoluta. Diz respeito aquele que está “no fundo do poço”, na mais profunda miséria. Ela tem relação com a raiz ptoséin que evoca a ideia de alguém que está agachado, que encolhe o corpo. Ptojós nos fala daquele miserável que não tem forças sequer para erguer-se ao pedir a esmola, mas ajoelhado, encolhido, implora para que alguém lhe conceda algo e alivie a sua situação.[4]Penés descreve ao homem que não tem nada supérfluo; ptojós, em troca, descreve o homem que não tem nada”.[5] É sobre este que Jesus afirma: “bem-aventurado...!”.

O Dr. Lloyd-Jones vai dizer que não é uma eventualidade esta bem-aventurança ter sido disposta em primeiro lugar no sermão de Nosso Senhor. Ela é a fonte de todas as outras bem-aventuranças e, aplicando ao contexto deste pequeno escrito, ela é a fonte de toda a vida de piedade e de toda a espiritualidade.

[...] não é para surpreender que essa seja a primeira das bem-aventuranças, porquanto, conforme veremos, é evidente que ela serve de chave para a compreensão de tudo quanto vem em seguida. Não há que duvidar que essas bem-aventuranças foram arrumadas em uma sequência bem definida. Nosso Senhor não as colocou em suas respectivas posições por mero acaso, acidentalmente: antes, há nelas aquilo a que poderíamos denominar de sequência lógica e espiritual. Necessariamente, essa é a primeira das bem-aventuranças devido à excelente razão que ninguém pode entrar no reino de Deus, também chamado reino dos céus, a menos que seja possuidor da qualidade nela expressa. No reino de Deus não existe sequer um participante que não seja “humilde de espírito”. Essa é a característica fundamental do crente, do cidadão do reino dos céus; e todas as demais características são, em certo sentido, resultantes dessa primeira qualidade.[6]

Para desenvolvermos uma vida de piedade e de espiritualidade, antes de tudo, é necessário que reconheçamos que não possuímos nada. É necessário que nos esvaziemos de nós mesmos, de nosso eu, da força e da capacidade que achamos que somos detentores. O apóstolo Paulo nos ordena: “[...] enchei-vos do Espírito” (Ef 5.18b – ARA), porém como poderemos ser cheios do Espírito se estamos repletos de nós mesmos? O Dr. Lloyd-Jones, com a sabedoria de costume, nos diz que é sobre isso que trata essa primeira bem-aventurança: "[...] ela indica, realmente um esvaziamento, ao passo que as demais apontam para uma plenitude. Não poderemos ser cheios enquanto não formos primeiramente esvaziados".[7]

Vivemos dias em que os homens têm um conceito elevado sobre si mesmos, estão cheios de si, e isto se aplica não apenas aos incrédulos, mas aos crentes. Muitos cristãos dos nossos dias, sobretudo aqueles tidos como exemplo de espiritualidade, são apresentados em toda a sua grandeza e suntuosidade. Muitos arrogam títulos importantes para si, se apresentam como sendo padrão de espiritualidade, como sendo referência para que os outros possam seguir. Eles estão no centro, se mostram como sendo cheios de “poder”, cheios de “autoridade”. Se vangloriam de sua oratória e se envaidecem por levar auditórios ao êxtase. Eles criam um padrão de espiritualidade em que os “homens de Deus” são na verdade “super crentes”, nunca devem ser vistos em humilhação, em pobreza, em fraqueza. Devem ser vistos como grandes, com toda a pompa e com todos os holofotes. Eles dizem: “Olhem para mim, eu sou o padrão, eu conquistei isso através de muito esforço, muitas horas de dedicação, eu sou a referência de espiritualidade. Eu conquistei isso! ”. A grande verdade é que pessoas que pensam e agem desta maneira não compreenderam absolutamente nada a respeito do cristianismo. Na verdade, elas criaram um falso cristianismo para elas, que lhes serve para satisfazer os próprios interesses e que lhes exalta o ego.

A verdadeira espiritualidade é demonstrada em fraqueza, em debilidade, em dependência, em esvaziamento. Ela é demonstrada em reconhecimento de que em nós mesmos não possuímos nada, não podemos nada, não somos nada. Tudo o que possuímos é favor, é imerecido, é presente e não salário.

[...] o Sermão do Monte virtualmente nos diz: “Eis o monte que você precisa escalar, o elevado nível até onde você deve subir; e a primeira coisa que você precisa entender, ao comtemplar esse monte que lhe compete subir, é que você não pode fazer tal coisa sozinho, é que você, por si mesmo, é totalmente incapaz da façanha, e que qualquer tentativa nessa direção tão-somente serve de prova inequívoca de que você ainda não compreendeu o espírito desse sermão”.[8]

Mais do que feliz é o miserável em espírito, aquele que, agachado à beira do caminho, encolhido, sem forças para se pôr de pé, ergue apenas as mãos em busca do Senhor, que passa à beira do caminho, para que Ele lhe conceda algo. Mais do que feliz é aquele que reconhece que, em si mesmo, nada possui, ele é como um mendigo, encolhido à beira do caminho. Ele é totalmente dependente do Senhor, ele sabe que tudo o que possui é graça, tudo é presente não merecido, tudo é dádiva que ele não trabalhou para obter, tudo é favor daquele Mestre que vê o miserável agachado à beira do caminho e lhe estende a mão. Ele não possuía nada! Ele não era, nem mesmo, como o penés que não possuía nada de supérfluo, mas ainda tinha algo. Não! Ele é o ptojós, aquele que não possuía absolutamente nada. Todavia, agora, ele possui tudo! Tudo, porque tem o Mestre, tem a Cristo! Tem a maior e mais inestimável riqueza!

      Por fim, quem sabe não possa surgir a seguinte indagação: como alguém se torna “pobre de espírito”? Encerro com a sábia resposta do Dr. Lloyd-Jones:

A resposta a essa indagação é que não olhemos para nós mesmos, e nem comecemos a tentar fazer as coisas por nossas próprias forças [...]. Sim, olhe para Jesus Cristo; e quanto mais você fixar nEle os olhos, tanto mais você se sentirá nulo em si mesmo, e tanto mais “humilde de espírito” você se tornará. Olhe para Ele, continue olhando para Ele. Volva-se para a experiência dos santos, considere os homens que mais plenamente foram cheios do Espírito Santo e usados nas mãos de Deus. Porém, acima de tudo, olhe novamente para Cristo; e então você nada terá de fazer por si mesmo. Pois tudo já terá sido feito. Realmente, você não pode volver os olhos na direção de Cristo sem sentir sua absoluta pobreza e nulidade. E então você poderá dizer para o Senhor:

Nada trago em minha mão,
Só na Tua cruz me agarro.

Vazio, desamparado, nu e vil. Entretanto, Ele é o Todo-suficiente.

Sim, tudo quanto me falta em Ti encontro,
Oh, Cordeiro de Deus, venho a Ti.[9]





[1] WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento – Volume I. Santo André: Geográfica Editora, 2006, p. 23.
[2] BARCLAY, William. E-book. Comentário Bíblico do Novo Testamento: Mateus. Versão em português de domínio público, pp. 96,97.
[3] Ibidem, p. 97.
[4] Ibidem, p. 98.
[5] Idem.
[6] LLOYD-JONES, D. Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São Paulo: Editora Fiel, 1999, p. 37.
[7] Idem.
[8] Ibidem, p. 38.
[9] Ibidem, pp. 46,47.



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2 comentários:

  1. Parabéns meu irmão e amigo. Lindo texto,aprendi mais um pouquinho com esse ótimo artigo.

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