domingo, 10 de setembro de 2017

O Protagonismo Feminino nos Primórdios do Protestantismo Brasileiro


Por Sebastiana Lima (Diana)

1. Introdução


A história da Religião Cristã é a história do protagonismo masculino, assim como a história da filosofia e de outros saberes. Quando fazemos esse tipo de afirmação, tendemos a receber a réplica, de que estamos usando um discurso feminista, contudo, não é necessário ser mulher, nem feminista, para concluir que a mulher ao longo da história, mesmo sendo capacitada, nem sempre teve espaço para ser sujeito da história.

No intuito de conhecer mais acerca do protagonismo feminino no protestantismo brasileiro no final do século XIX, surgiu a oportunidade de realizarmos essa pesquisa, que ainda é introdutória, mas, pretende abordar um pouco acerca dos aspectos históricos que circundam o universo feminino envolvido no processo de implantação das bases do Protestantismo no Brasil.

É inegável o papel da mulher na história de todas as instituições, culturas, religiões, etc, na história do Brasil, também, a mulher teve um papel significativo, pensando nisso iremos conhecer um pouco acerca de algumas mulheres que tiveram papel preponderantemente importante na história do protestantismo no Brasil.

No que tange ao conhecimento teológico, o homem sempre teve prioridade. À mulher, não cabia a necessidade de conhecimento, até porque a sua função no reino dos homens era de cunho inferior, estudar seria algo de pouca valia. Isso é bem antigo, por exemplo, desde o séc. XIII vemos que a participação da mulher na escrita se dá de forma “ativa com Heloísa[1], ela tinha uma educação incomum para as mulheres da sua época” MARINHO, (2013, p.3), também com outras duas mulheres, diferentes de Heloísa, entretanto, seres humanos com inteligência e capacidades cognitivas semelhantes aos homens:

Hildegard von Bingen, monja beneditina que deixou uma obra considerável que aborda, dentre outras áreas do saber, a teologia, a filosofia, a música e a exegese. E, por fim, Marguerite Porete, beguina, autora de Le moiroeur dês simples ames[2], escrito possivelmente em meados de 1290 e que aborda, numa visão mística, o amor e a liberdade; livro com o qual a autora foi queimada em praça pública em 10 de junho de 1310. MARINHO, (2013, p.3)


Falar acerca de mulheres que ousaram pensar, fazer teologia e expressar o desejo de liberdade feminina, é um assunto que agride o universo do reino dos homens, marcado pelo desprezo pelo feminino e o cerceamento de qualquer grau de liberdade expresso pelas mulheres. Adentramos um pouco a exemplos como o de Heloísa, Hildegard e a beguina[3] Marguerite Porete, para ilustrarmos um pouco o papel da mulher no universo da escrita e da Teologia, entretanto, o alvo dessa breve investigação é conhecer o papel de algumas mulheres protestantes, do período imperial brasileiro, que se destacaram como modelo de conhecimento, trabalho e dedicação a obra cristã.  


2. A escassez de menção de nomes femininos na história da Reforma Protestante

Sabemos que os reformadores tiveram sua importância pelo seu trabalho e conteúdo teológico e doutrinário que produziram e isso é notável, mas nesse contexto também tiveram mulheres que participaram. Não somente as esposas, também algumas missionárias solteiras, ou ex-religiosas da Igreja Católica Apostólica Romana convertidas ao Protestantismo.

Mas a história contada é a dos que lograram êxito, de heróis, reis e poderosos, a mulher do período Antigo, Medieval e no Brasil Imperial, não tinha metade do espaço que conquistou na história dos dias atuais. Para embasar esse argumento vejamos o que a professora Rute Salviano Almeida diz:

A história positivista, escrita por mãos masculinas e enfocando grandes acontecimentos e personagens, esqueceu ou não se importou de mencionar a participação das mulheres na reforma religiosa do século XVI. Foram poucas e pequenas as menções a elas. Portanto, para uma escrita mais verdadeira da História é necessário resgatar essa valiosa contribuição feminina, porque quando a história é contada pela metade não está completa. ALMEIDA, (2017).
     
Para que a História seja completa, necessita-se de mencionar seus autores e seus personagens, à medida que são esquecidos ou omitidos, têm-se uma história de entremeios, entrecortada pelo preconceito.

Um fato interessante é o seguinte: ao sermos indagados sobre os nomes dos Reformadores, no ato respondemos: Lutero, Calvino, Zwínglio, Jonh Knox... Mas, esquecemos que nem só de homens se faz a história, nesse conjunto de reformadores, existiram vozes femininas, mãos e atitudes que ajudaram a construir todo esse edifício historiográfico.

A participação das mulheres na Reforma, não se deu através de grandes tratados teológicos, mas, segundo Almeida, (2017):

Contudo, embora relevante, a participação feminina no movimento foi diferente, pois não produziu grandes tratados teológicos e nem atuou em sérios debates. As mulheres preferiram uma abordagem mais branda, através de uma literatura mais íntima. [...] Suas vozes eram ouvidas através de suas frases.

Rute Salviano Almeida,[4] cita cinco mulheres que tiveram suas vozes ouvidas na Reforma, são: Marie Dentière[5], Catherine Zell[6], Árgula von Grumbach[7], Margarida de Navarra[8], Joana D’Albret[9]. Diante disso podemos de fato perceber, que foram mulheres que souberam cumprir seu papel de maneira digna, virtuosa, sendo promotoras da própria história, sem precisar ficar nos bastidores, da História.


3. A mulher cristã e os estudos

Quando pensamos em educação na contemporaneidade, ficamos imaginando as mulheres que viveram no século XIX e as dificuldades que tiveram para acessar o conhecimento. O Brasil desse período, não oferecia recursos à educação pública, a imagem de escola que temos na nossa cabeça fica longe do que era de fato o conceito de escola.

No que tange aos protestantes que vieram ao Brasil, oriundos da Europa e da América do Norte, eles faziam uso da imprensa e produziam folhetos de cunho educativo. Estava no âmago da Reforma Protestante, o uso da leitura para facilitar a compreensão das Escrituras e não mais serem mediados pelos sacerdotes católicos, como era praticado pelo catolicismo. Com essa necessidade, deu margem ao surgimento das Escolas de Primeiras Letras, motivadas pelo ideal reformador de alfabetização na língua materna.

Dentro dessa perspectiva, iremos destacar o trabalho de algumas mulheres, protestantes estrangeiras, que tiveram destaque na educação. Não somente na educação, contudo, desempenharam diversos papéis de maneira que fizeram história com sua maneira de agir nos mais diversos contextos sociais e culturais.


4. Três mulheres que fizeram história no brasil império

4.1. Sarah Kalley

Sarah Poulton Wilson, nasceu em Nottingham na Inglaterra em 1825, desde a sua juventude já era uma mulher à frente do seu tempo.

Aos dez anos de idade Sarah foi enviada a um internato (com rígidos princípios puritanos) que ficava localizado próximo à cidade de Fairfield, onde morava sua avó paterna. Sarah passou seis anos na instituição preparando-se para o exercício de seus futuros ministérios: pianista, musicista, pintora, poetisa e poliglota, e tinha muita habilidade para ensinar. CARDOSO, (2001, p. 100).

O primeiro ministério de Sarah foi na igreja Congregacional de Torquay, em 1855 casou-se com Robert Reid Kalley e assume novo campo missionário, o Brasil. Sarah era uma mulher extremamente inteligente, de acordo com Cardoso: “preparava sermões para serem lidos nos púlpitos pelos presbíteros da Igreja e até mesmo para o Sr. Kalley” (Cardoso, 2005, 205 – 208).

Sara Poulton Kalley, escreveu o livro A Alegria da Casa em 1866, esse livro é rico em ensinamentos para a vida cotidiana, administração da casa, normas de higiene, economia doméstica, preparação das moças para o casamento. É uma maneira prática de valorizar as mulheres e romper com o estigma de mulheres frágeis e fúteis.

4.2. Marta Watts

Marta Watts foi a primeira educadora do metodismo no Brasil,

Martha Watts veio para o Brasil para educar mulheres; esta foi a missão que a Sociedade Missionária da Mulher lhe designou, ou, melhor dizendo, para a qual Martha se candidatou. Assim, pois, é necessário que se diga duas ou três palavras sobre a situação da mulher na sociedade brasileira do final do século XIX, quando Martha Watts aportou no Rio de Janeiro trazendo na bagagem sua tarefa de ensinar, num país estranho, de língua desconhecida, distante física e culturalmente de sua “América”.  Durante todo o século XIX, as mulheres brasileiras estiveram submissas a pais e maridos. Esta submissão, entretanto, não implicava na falta de importância da mulher. Embora dependente dos homens o papel da mulher era bastante significativo na sociedade. Quando falamos na mulher do final do século XIX no Brasil, queremos nos referir à mulher da elite. Numa sociedade agrária e escravocrata, fora das elites, existiam apenas as criadas e um pouco mais tarde as negras recém-libertas. MESQUITA, (p. 100).
           
A mulher do final do século XIX, período que Marta Watts viveu era uma sociedade de elite. Marta estava inserida no seio da elite, fora desse contexto, subsistiam as criadas e mais adiante as negras que foram libertas. “A vida social no Brasil, nesse período, girava em torno de recepções, saraus, e festas familiares. Nesses eventos, discutiam-se e fechavam-se negócios, arrumavam-se casamentos, firmavam-se as posições sociais” MESQUITA, (p. 100).

4.3. Carlota Kemper

Carlota Kemper é uma daquelas mulheres cristãs que merecem ser citadas, seu esforço e seu trabalho foram um marco na história das missionárias cristãs que vieram ao Brasil com um propósito de servir ao povo com seus dons.

No ano de 1882, uma educadora, já em idade avançada, vem para o Brasil como missionária da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos se tornando diretora do departamento de meninas do Colégio Internacional sediado em Campinas. Essa missionária, D. Carlota Kemper, ajudou a fundar o atual Colégio Gammon e trabalhou na missão como educadora até a sua morte com 90 anos de idade, dedicando grande parte da sua vida à obra missionária. ARANTES, (p.1).


De acordo com Arantes, (p.1):

A obra presbiteriana em solo brasileiro só foi possível devido aos investimentos das Igrejas norte-americanas. O missionário pioneiro [...] foi Ashbel Green Simonton, [...] chegou ao Rio de Janeiro, em 1859, e nessa primeira década vários outros missionários vieram ao Brasil pregar a “Palavra de Deus” e como parte fundamental do seu trabalho: criar escolas. Para esses protestantes, parte de sua missão era “civilizar” a terra que para “Deus” conquistavam, educando homens e mulheres que promoveriam o progresso da Nação. ARANTES, (p. 2).
           
Diferentemente da abordagem católica, os protestantes reformados, entre eles os presbiterianos, tinham a preocupação com a educação do povo, vinham com esse conceito muito certo, para promoverem o progresso da nação. Nesse ideal

[...] em 1882, a educadora Carlota Kemper veio para o Brasil como professora do Colégio Internacional e missionária, já possuindo a responsabilidade de liderar o departamento de meninas. Nessa época, Carlota estava com 45 anos, tendo trabalhado a maioria deles como professora em diversos colégios dos Estados Unidos. ARANTES, (p.2).



Considerações finais

É preciso entender que homem e mulher foram criados à imagem de Deus, conforme o texto de Gênesis 1.27, portanto, ambos gozam da mesma dignidade e importância diante de Deus, como pessoa. A Bíblia também garante que homens e mulheres têm o mesmo acesso às bênçãos da salvação. Jesus Cristo, no seu ministério terreno, conferiu muito respeito e dignidade às mulheres. É importante ressaltar que a igreja contemporânea, às vezes, erra por falta de conhecimento, talvez pelo machismo que está culturalmente instalado na mente de uma grande parte dos homens, os quais muitas vezes ocupantes dos cargos de liderança.
             Com esse estudo pudemos compreender um pouco sobre o protagonismo feminino nos primórdios do protestantismo brasileiro. O Brasil recebeu mulheres oriundas de outras nações que, mesmo imersas em uma cultura de domínio masculino, não desistiram de se colocar como sujeitas da própria história, não esperaram que alguém oferecesse um espaço para a sua atuação.
            É possível, a partir de investigações como essas, dialogar com o contemporâneo e entender os embates entre homens e mulheres do nosso tempo. Vivemos em uma sociedade bem diferente, as mulheres cristãs protestantes são bem distintas da Sarah Kalley, de Marta Watts e Carlota Kemper, mas enfrentam preconceito, convivem com desafios de um país capitalista em que precisam enfrentar triplas jornadas de trabalho: casa, trabalho, filhos, estudo, vida espiritual, esposo...
            A mulher intelectual ainda enfrenta a postura radical de boa parte dos homens cristãos. Ainda convive com os olhares críticos que Marguerite Porete, Heloísa e Hildegard conviveram, embora, em contextos muito distintos. O espaço feminino no universo eclesiástico é como se fosse cedido, favorecido a quem não tem competência para ocupá-lo, qualquer notoriedade feminina que rompa com o padrão normal de “mulher correta é mulher calada”, já soa à competição. Claro que existem muitos problemas relativos a núcleos femininos que se tornaram feministas e buscaram uma identidade de gênero semelhante ao Estado laico, não é desse universo que estamos falando.
            O que importa é que esse tema está sendo abordado a partir de uma perspectiva histórico-crítico, servindo de pano de fundo para futuras investigações e maior aprofundamento. Aqui iniciamos, provocamos, em outra oportunidade podemos reincidir no assunto, afinal é um mote polêmico que tem muito a ser investigado.
  



NOTAS


[1] Heloísa é mais conhecida pela sua relação com Pedro Abelardo. Ela era uma brilhante estudiosa de grego, latim e hebraico e tinha a fama de ser muito inteligente, além de ter um dom imenso para a escrita e a leitura. Ela se tornou aluna de Pedro Abelardo, que foi um dos mais populares professores e filósofos de Paris.
[2] Tradução: O Espelho das Almas Simples e Aniquiladas e que permanecem somente na vontade e no desejo do Amor.
[3] O Movimento das Beguinas situa-se num período denso de inventividade cultural protagonizada por figuras e organizações femininas. A partir da Bélgica, e estendendo-se por outros países europeus, o Movimento das Beguinas pontificou durante os últimos séculos da Idade Média, numa Europa marcada pela presença insubmissa e contestatária de mulheres – santas, sábias, guerreiras -, cuja influência se estende para além da Idade Média. CALADO, 2012.
[4]  Vozes Femininas na Reforma. ALMEIDA, (2017)
[5] [...] Teve seu nome inscrito no muro dos reformadores em Genebra, em 2002. Ex-prioresa das agostinianas, após ficar viúva, casou-se com o companheiro de Farel, o reformador Froment, com quem foi para Genebra defender a causa reformista. A carta que escreveu para rainha Margarida de Navarra foi considerada um tratado teológico. ALMEIDA, (2017).
[6]  [...] esposa do pastor luterano Matheus Zell, escreveu panfletos para propaganda da Reforma. Com inteligência e sabedoria, ela confrontava perspicazmente com a Bíblia a doutrina do sacerdócio de todos os crentes. ALMEIDA, (2017).
[7] Bávara erudita, escritora de panfletos, que defendeu veementemente a Reforma e os reformadores. Em sua apologia argumentou à Universidade de Ingolstadt: “Vocês desejam destruir toda a obra de Lutero. Nesse caso destruiriam o Novo Testamento que ele traduziu. Nos escritos de Lutero e Melanchton, não existe nenhuma heresia [...]. ALMEIDA, (2017).
[8] Irmã do rei Francisco I da França e esposa do rei Henrique II de Navarra. Ela acolheu em seu reino reformadores e eruditos perseguidos, entre eles o próprio Calvino. Entre suas obras, encontram-se um poema espiritual: O Espelho das almas pecadoras e um livro de contos O Heptameron, no qual denunciou a imoralidade de clérigos que, indignados, tentaram matá-la. Fez mudanças eclesiásticas em seu reino: celebração da ceia em duas espécies, cultos na língua do povo, abolição do celibato e das roupas litúrgicas dos ministros. Seu maior destaque, contudo, foi sua grande humanidade, a ponto de preferir ser chamada a primeira-ministra dos pobres. ALMEIDA, (2017).
[9] Filha de Margarida de Navarra e mãe do rei Henrique IV, que concedeu a liberdade religiosa na França. Foi a reformadora do seu reino e líder dos huguenotes. Ela confiscou os bens da igreja e distribuiu aos pobres, aboliu as procissões públicas, retirou imagens e suprimiu missas. Fundou a Faculdade em La Rochelle, um centro de piedade evangélica. ALMEIDA, (2017).




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Rute Salviano. Vozes Femininas na Reforma. Disponível em: <http://www.ultimato.com.br/conteudo/vozes-femininas-na-reforma> Acessado em 24 de maio de 2017.

ARANTES, Thaís Batista de Andrade.  Carlota Kemper: uma educadora esquecida (1882-1927).  Disponível em: < www.cogeime.org.br/revista/cap1120.pdf>. Acessado em 24 de maio de 2017. 20:14 h.

CALADO, Alder Júlio Ferreira. O Movimento das Beguinas: Interfaces e ressonâncias em experiências sócio-religiosas femininas do presente, 2012. Disponível: < http://consciencia.net/o-movimento-das-beguinas-interfaces-e-ressonancias-em-experiencias-socio-religiosas-femininas-do-presente/> Acessado em 24 de maio de 2017, 13:25 h.

CARDOSO, Douglas Nassif. Robert Reid Kalley: Médico, missionário e profeta. São Bernardo do Campo, SP:  Ed. Do autor. 2001.

______. Cotidiano Feminino no Segundo Império. São Bernardo do Campo, SP. Ed. Do Autor.

MARINHO, Maria Simone Nogueira. A Escrita Feminina Medieval: mística, paixão e transgressão. Mirabília: Revista Eletrônica de História Antiga e Medieval. 23 p.

MESQUITA , Zuleica de Castro Coimbra Mesquita. Martha Watts: uma educadora metodista na belle époque tropical. Disponível em:<www.cogeime.org.br/revista/cap1120.pdf> Acessado em 24 de maio de 2017.
  



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