quarta-feira, 28 de junho de 2017

O feio na Estética filosófica - Sebastiana Inácio Lima

1ª época:
Na primeira época, o feio é identificado como desordem, assumindo também conotações do erro do mal. Representa a negação específica de todos os valores contidos na tríade do verdadeiro, do bom e do belo, enquanto manifestação sensível de uma alma inadequada para sua destinação superior[...] (p. 126)
No pensamento de Platão o feio representa a ausência absoluta do belo, e seu decalque negativo. Isto é, da eternidade que brilha em formas sensíveis e que embora em nível diferente – se insere ao lado do verdadeiro, na constelação do bem […] o feio é mera carência: não-ser vazio, que só pode ser pensado justamente por oposição. De fato, “se o divino é constituído pelo que é belo, sábio e bom”, o feio por oposição aquilo que é contrário às referidas qualidades. (p. 127)
[…] Plotino afirma que o belo é a plenitude do ser e o feio é constituído pela ausência de tal plenitude: “a beleza é uma realidade verdadeira e a feiúra uma natureza diferente desta realidade” (I, 6, 1). (p.127)
“O feio aparece quando somos incapazes de proceder além das aparências [...]” (p. 128)
2ª época:
O feio [...] começa a ser aceito, na teoria e nas práticas artísticas, a partir do Cristianismo que, sucessivamente, transmite a sua herança ao mundo moderno. A religião cristã, adorando um Deus sofredor, com certeza não se inspira nos cânones estéticos da tradição clássica. Como foi assinalado por Hegel na sua Estética: “não é possível representar nas formas da beleza grega um Cristo flagelado, coroado de espinhos, carregando a cruz até o lugar do suplício, crucificado, agonizando nos tormentos de uma longa e martirizante agonia”. (p. 128-129)
O verbo se esvaziou da sua magnificência e da sua majestade e se tornou feio, para tornar bela a humanidade deformada pelo pecado. (p. 129)
Ao contrário dos platônicos e dos neoplatônicos, o Cristianismo não configura uma elevação em direção ao belo e ao bem por parte do ser humano [...] mas também como uma descida do divino no humano[...]. Um processo em direção ao feio e, do ponto de vista moral, ao reprovável, para o cristão, no entanto, constituem a garantia de que Deus assiste a cada um na travessia desse vale de lágrimas. (p. 130)


ADORNO, T. W. Teoria Estética. Tradução de Artur Lisboa Morão. Lisboa: 70. 2006, p. 60-68.

BODEI, Remo. A Sombra do Belo. In: As formas da beleza. Tradução de Antônio Angonese. Bauru, SP. Edusc. 2005. p. 125-169.

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