quarta-feira, 28 de junho de 2017

A Morte da Arte em Benjamin e Vattimo - Sebastiana Inácio Lima



1.                  Benjamin e às técnicas de reprodução, no século XIX e o efeito sobre as obras de arte.

De acordo com Benjamin a obra de arte desde seu início foi suscetível de reprodução. As técnicas de reprodução são um fenômeno desenvolvido no curso da história por meio de saltos e separado por longos intervalos num ritmo cada vez mais rápido. Contudo, os gregos só conheciam dois processos de reprodução: a fundição e a cunhagem. Através da litografia as técnicas de reprodução progrediram permitindo que pela primeira vez as artes gráficas além de comercializar as produções em série também produzissem diariamente obras novas. Com a fotografia, o lugar que era da litografia foi ocupado e com o advento do século XX as técnicas de reprodução chegaram a se impor como formas originais de arte e o critério pela qual essas manifestações aconteceram foram através da reprodução da obra de arte e da arte cinematográfica.
A fotografia deu início à destruição da aura das obras de arte, mesmo que as técnicas de reprodução deixem o conteúdo da obra intacto, ainda assim desvalorizam seu hic et nunc. Essa desvalorização na obra de arte atinge-a no ponto mais sensível que é a autenticidade.
As técnicas de reprodução de acordo com Benjamin promovem a destruição da aura, aliadas às transformações sociais. Tudo isso pode ser pensado como o fim da tradição ritualística da arte. A unicidade da obra de arte não difere de sua integração no conjunto de afinidades denominado tradição. A tradição é uma realidade viva e mutável. As obras de arte mais antigas nasceram a serviço de um ritual, inicialmente era mágico, em seguida religioso e com a obra de arte perdendo seu valor de culto necessariamente há a perda da aura, o valor de autenticidade fundado com o ritual dá lugar ao valor utilitário.
Com o surgimento da fotografia contemporânea dos primórdios do socialismo inicia-se uma crise inegável mesmo após cem anos. Através da fotografia e das técnicas de reprodução a obra de arte deixa de ter o seu caráter de unicidade e originalidade e passa a ser reproduzida cada vez mais.
A acolhida da arte se dá de duas formas que são: o valor da arte como objeto de culto e como realidade exibível. Na medida em que as obras de arte vão se emancipando do seu uso ritual, as oportunidades de exposição tornam-se cada vez mais frequentes.
O valor de exibição da obra de arte confere-lhe novas funções e a função artística pode aparecer como necessária. Com a fotografia, o valor de exibição começa a empurrar o de culto para segundo plano, as fotos antigas substituem a aura, o valor de exibição supera o de culto. A arte retirada de suas bases ritualísticas pelas técnicas de reprodução não pode manter sua independência.

Para Benjamin a relação teatro e cinema são distintos para o declínio da aura na arte.  No cinema o ator deve agir com sua personalidade viva embora esteja privado da aura, visto que essa aura depende do hic et nunc , já no teatro a aura da peça é inseparável da aura do ator, ele desenvolve o seu papel de modo que o público pode contemplar todas as emoções ao vivo. No teatro a aura é mantida pelo fato dos atores se relacionarem com seu personagem de forma contemplativa promovendo uma riqueza de sensações entre a relação direta como o personagem, o ator interpreta seu personagem para uma platéia de forma que ele próprio se torna a expressão da obra de arte. 
No cinema, de acordo com Benjamin a tomada no estúdio tem a capacidade de substituir o público pelo aparelho, a aura dos intérpretes desaparece junto com a aura dos personagens que estão sendo representados. É bem diferente o ator de teatro para o de cinema, pois enquanto o ator de teatro entra na pele do personagem que está sendo representado por ele o ator de cinema não pode fazer o mesmo. O conjunto de mecanismos de produção é que mediam o ator e ele desempenha uma série de sequências isoladas e acaba sendo transformado em mais um elemento cinematográfico que é manipulado para preencher as exigências dos espectadores.
Portanto, o cinema contribui para o declínio da aura no sentido de que ele não convida o público para sua contemplação, as pessoas se entregam a assimilação de ideias prontas. O seu olho mal consegue captar uma imagem outra já é posta, ao contrário do teatro onde o olho pode ser fixado nas cenas e a própria sonoridade é sedutora aos seus ouvidos.

2.                  Os conceitos de inconsciente visual e percepção distraída

Para Benjamin, a confecção de um filme se tornaria impossível de ser executada se não houvesse uma gama de objetos, máquinas, aparelhos, etc. Sem esses recursos seria necessário que o olho do espectador se assemelhasse a objetiva da câmara, já no teatro, basta que haja um local para que o espetáculo funcione. A situação do cinema em oposição ao teatro é muito mais acirrada se comparada à pintura. Entre o pintor e o filmador existe uma relação que Benjamin compara ao curandeiro e o cirurgião. O pintor observa uma distância natural entre ele e a realidade dada, o filmador penetra na própria estrutura do dado.
As técnicas de reprodução aplicadas à obra de arte modificam a atitude da massa com relação à arte. À medida que há uma diminuição do significado social da arte há uma separação entre o espírito crítico e o sentimento de fruição. Quando as obras de arte a partir do século XIX têm a permissão de serem mostradas a um público maior, inicia-se o primeiro sintoma da crise que teve seu desfecho com a fotografia e pela intenção da obra de arte se endereçar às massas. As pinturas que antes ficavam restritas aos claustros e as igrejas da Idade Média passam agora a se confrontar com a sua própria natureza ficando diretamente confrontada com as massas. Embora as massas pudessem desfrutar dessa apresentação pública das obras de arte, elas não poderiam organizar e controlar a sua própria acolhida.
O cinema não é caracterizado apenas pelo modo como o homem se apresenta ao aparelho, mas é graças a esse aparelho que ele representa para si o mundo que o rodeia, ele revela o consciente instintivo. O cinema causou um alargamento da percepção, uma ampliação da realidade maior do que as do teatro e da pintura. A natureza revelada pela câmara é distinta da que se apresenta aos olhos, ela substitui o espaço onde o homem age consciente por uma que ele age inconscientemente, a experiência do inconsciente visual abre a experiência do inconsciente instintivo.
As técnicas de reprodução promovem a desvalorização da obra de arte e a perda da sua aura, o que era único e exclusivo passa a tornar-se comum. Fazendo com que o homem moderno deixe de relacionar-se com a arte num sentido qualitativo e passe a relacionar-se num sentido quantitativo. Quanto à percepção distraída, nessa forma de exibição o sujeito deixa de ser ativo diante das inúmeras informações que são projetadas à sua consciência e passa a ter uma relação de passividade por não conseguir assimilá-las com a rapidez com que são expostas.
3.                  Vattimo e a problemática da morte da arte.
De acordo com Vattimo, quando falamos ou pensamos na morte da arte, falamos dentro dos limites da metafísica realizada que chegou ao seu fim no sentido de Heidegger e de Nietzsche. Vattimo pretende pensar a morte da arte em dois momentos: o fenômeno do fim da metafísica e o “mass media” advento da cultura de massa. Nessa época o pensamento se acha diante da metafísica numa posição de restabelecimento como convalescença a metafísica não é completamente abandonada, somos remetidos a ela, por e ela nos é remetida como algo que nos é destinado. Com o advento da cultura de massa a morte da arte é o que podemos esperar de reintegração revolucionária da existência, pois é aquela de fato que já vivemos na sociedade da cultura de massa.
3.1.            Os fenômenos da morte da arte.
Para Vattimo a morte da é um evento que corresponde à constelação histórico-ontológica na qual nos movemos, é uma trama de eventos histórico-culturais que lhes pertencem e os co-determinam. A morte da arte é algo que nos concerne e que não podemos deixar de encarar. É como profecia-utopia de uma sociedade que a arte deixou de existir como fenômeno específico. O último a anunciar a morte da arte foi Marcuse, segundo Benjamin, sua perspectiva de morte da arte se apresentava como uma possibilidade ao alcance da sociedade tecnicamente avançada. E essa possibilidade não se exprimiu apenas como utopia teórica, a prática das artes mostra um fenômeno da explosão do estético, estetização da vida, fazendo a arte sair do domínio das instituições tradicionais para invadir a vida. A morte da arte no sentido de uma explosão do estético que se realiza nas formas de auto-ironização da própria operação artística. Um fato relevante para a passagem da explosão do estético é configurado nas vanguardas históricas que pensam a morte da arte como a supressão dos limites do estético. Com as técnicas de reprodução não só as obras de arte perdem sua aura, mas nascem formas de arte constituídas de reprodutibilidade como o cinema e a fotografia.
A morte da arte segundo Vattimo não apenas o que esperamos da reintegração revolucionária da existência, é que vivemos na sociedade da cultura de massa, a mídia produz consenso e intensificação de uma linguagem comum no social, é o meio da massa no sentido do consenso, dos gostos e sentimentos comuns. Seja no sentido em que a arte esteja incluída ou a perspectiva a morte da arte significa duas coisas: em sentido forte e utópico e em sentido fraco ou real. Forte e utópico é o fim da arte como fato específico e separado do resto da experiência e em sentido fraco e real, a estetização como extensão do domínio do mass media.
Com o domínio do mass media os artistas responderam com uma espécie de suicídio de protesto, optando pelo silencio puro e simples. Os três momentos da morte da arte são: utopia, kitsch e silêncio.
4.      Os fenômenos da morte da arte como ocaso da arte.
Vattimo utiliza o eufemismo ocaso para designar a situação concernente à estética filosófica, que pelo seu caráter perdurante não pode ser considerado como morte da arte. Ao longo de todos os eventos essa morte é sempre anunciada e adiada e ela vai sempre perdurando o que faz com que dê origem a outras formas de arte. Não significa dizer que a arte vai voltar a ter sua aura restituída e o seu valor de culto, mas o fato de Vattimo não considerar morte e sim ocaso da arte é o que justifica as novas formas da arte se colocar. A arte não se extingue nem evolui ela dá origem a outras formas de arte de acordo com  os novos tempos e as suas exigências.
Vattimo fala sobre duas formas de lidar com o embaraço da Estética filosófica que são: derrubando a descrição enfática no plano da utopia e da crítica social ou recusando o conceito da estética tradicional e recorrendo as noções positivas das outras ciências. Os fenômenos da morte da arte fizeram com ela se tornasse democrática. O mass media  cristalizaram o fenômeno da morte da arte. A estética da tradição é um destino que devemos remeter-nos, O caráter dos conceitos que recebemos da estética relaciona-se à essência dessa mesma metafísica. A experiência que fazemos do ocaso da arte pode ser explicada com a noção heideggeriana de obra de arte como pôr em obra da verdade.
Para Vattimo com a reprodutibilidade técnica a experiência estética se aproxima do que Benjamin chamou de “percepção distraída”, mas é possível  que ao contrário na fruição distraída  a arte nos interpele num sentido que nos obrigue a dar um passo além da metafísica. A fruição distraída move-se num caminho de ocaso e declínio.
De acordo com Vattimo, a noção de “pôr em obra da verdade” tem dois aspectos em Heidegger: a obra é exposição de um mundo e produção da terra. Exposição que Heidegger acentua no sentido de montar uma mostra significa que, a obra de arte tem uma função de fundação e constituição das linhas que definem  um mundo histórico.  No “pôr em obra da verdade” há uma denúncia da verdade que tem como finalidade o declínio. A obra como “por em obra da verdade” no seu aspecto de exposição de um mundo é lugar de exibição e intensificação do  vínculo ao grupo. É uma função que se mantém e se exerce na situação em que cada obra singular desaparece com a sua aura em favor de outros produtos que virão substituir de valor análogo. É como se o mundo fosse trazido para a terra e submetido ao perecimento, tem uma vida e um declínio.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              
REFERÊNCIAS
VATIMMO, Gianni. Morte ou Ocaso da Arte, in: O fim da modernidade.
BENJAMIN, Walter (1994), “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, in BENJAMIN, Walter, Magia e Técnica, Arte e Política: Ensaios sobre literatura e história da cultura. 7.ª ed. São Paulo: Brasiliense. (Obras escolhidas; v. 1)

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