sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Uma breve análise do movimento dos “desigrejados”


por Rafael de Lima

          Os últimos anos têm sido marcados por mudanças profundas no panorama religioso mundial e, particularmente, brasileiro. A Europa, outrora marcada intensamente pelos conceitos e fundamentos do cristianismo é hoje chamada de pós-cristã, transformou-se de celeiro de missionários em campo missionário. Por outro lado, o Brasil experimenta um crescimento (ou inchaço) exponencial do número de evangélicos, alcançando o percentual de 22,2% da população brasileira segundo o Censo Demográfico 2010[1].
          Apesar deste crescimento notável, um outro fenômeno é percebido no cenário religioso brasileiro, o crescimento dos chamados “sem religião”. O Censo 2010 apresenta números relevantes a respeito deste grupo e, segundo os dados apresentados, estes já somam 8,0% da população[2]. É possível que neste percentual estejam inseridos aqueles que formam o agrupamento que tem sido intitulado de “desigrejados”.
          Os “desigrejados” seriam, nas palavras Rev. Augustus Nicodemus, pessoas que “[...] querem ser cristãos, mas sem a igreja”[3]. Este grupo seria formado basicamente por pessoas que, na sua caminhada cristã, foram profundamente decepcionadas, sobretudo, por líderes, e ainda de pessoas que estão certas de que a igreja institucional e organizada fracassou e que ela tem sido, na verdade, um empecilho para o crescimento do “verdadeiro” cristianismo.
Participando de debate realizado pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper a respeito do tema e respondendo ao questionamento “A igreja atrapalha o cristianismo? ”, o professor Tarcízio Carvalho fez a seguinte análise:

É uma avaliação que eu tenho que dizer: sim e não. As vezes a igreja atrapalha o cristianismo, porque ela se engessa, se torna não atraente, machuca as pessoas... tudo isto é verdade. Mas, em termos de fenômeno vale a pena observar o fenômeno e ver se a resposta adequada é exatamente a saída, a porta de saída, porque, afinal de contas, a gente vive no país do futebol e a maioria das pessoas não troca de time porque fica decepcionado com eles, não é? Então pode ser que haja uma razão, e uma razão teológica, mesmo que a pessoa não saiba dar nome a isto porque ela não abandona algumas coisas, mas alguns aspectos que são estruturais e estão associados mais próximos a Deus, como casamento e igreja, as pessoas têm tido facilidade em abandonar. (informação verbal)[4]

Sem entrar em pormenores da resposta dada pelo Prof. Tarcízio Carvalho percebemos que, realmente, existe um certo desdém quando o assunto em questão é a igreja. De fato, existe mais fidelidade ao time de futebol do que à igreja local. Troca-se de igreja como que se troca de roupa e, ainda, abandona-se a igreja como quem abandona o “grupo de estudos de literatura escandinava” ou o “clube de treinamento de tênis de mesa”. Abandonam-se estas coisas simplesmente porque não se mostram mais como importantes e que não satisfazem mais os anseios dos participantes. Assim também, muitos têm feito à igreja.
A ideia aqui não é propor que a igreja institucional e organizada não tenha problemas. É inegável as muitas deficiências que ela apresenta e nisto, sem dúvidas, os “desigrejados” têm razão. Infelizmente, quando nos debruçamos sobre a igreja organizada temos encontrado características que não condizem com aquelas que ela deveria ter e que são apresentadas nas Sagradas Escrituras. Entre elas pode-se destacar: Os escândalos sistemáticos que dia após dia surgem no seio da igreja institucional; O controle, quase que hipnótico, que muitos líderes exercem sobre os seus liderados causando-lhes danos emocionais, financeiros e, até mesmo, físicos; Os jogos políticos e de poder; A ênfase nas questões de ordem administrativa, em detrimento daquelas ligadas, de fato, à vida e a espiritualidade da igreja; A afeição mais pelas coisas do que pelas pessoas; O materialismo e o consumismo que arrasam os arraiais evangélicos; A teologia desvinculada da piedade cristã; para mencionar apenas algumas.
Estas características danosas estão amplamente presentes nos vários agrupamentos evangélicos brasileiros e transitam desde as chamadas Igrejas Históricas e Tradicionais, passando pelos Pentecostais Clássicos e chegando aos Neopentecostais e a herética Teologia da Prosperidade. Donde concluímos que o fenômeno dos “desigrejados” não é produto simplesmente dos desiludidos vindos de igrejas neopentecostais (ainda que seja possível inferir que estas têm se apresentado como o principal motor deste fenômeno), mas de outros grupos de evangélicos.
Todavia, parece-nos que a questão vai muito além das mazelas que podem ser encontradas na igreja organizada. Existem muito de uma ideologia danosa que fundamenta o modo de pensar e agir dos “desigrejados”. O Dr. Nicodemus traz certa luz a esta questão quando afirma:

Ao final, parece que a revolta deles não é somente contra a institucionalização da Igreja, mas contra qualquer coisa que imponha limites ou restrições a sua maneira de pensar e agir. Fico com a impressão de que eles querem se livrar da igreja para poderem ser cristãos do jeito que entenderem, acreditarem no que quiserem, sendo livres-pensadores sem conclusões ou convicções definidas, fazendo o que sentem vontade, a fim de experimentarem de tudo na vida sem receio de penalizações e correções.
Não quero generalizar. Existem claramente exceções ao que estou dizendo. Mas esse tipo de atitude anti-instituição, antidisciplina, antirregras, antiautoridade antilimites de todo o tipo se encaixa perfeitamente na mentalidade secular e revolucionária de nosso tempo, que entra nas igrejas travestida de cristianismo. [5]

Muitas vezes o debate se insere em expressões como: “Você não vai à igreja, você é a igreja”. E isto é, por vezes, compartilhado por cristãos, membros de igrejas locais, sem que estes percebam que os pressupostos que alicerçam esta afirmação, muitas vezes, partem de círculos de “desigrejados”. Aqui vale um breve esclarecimento do que em teologia chamamos de “Igreja Invisível” e “Igreja Visível”.
Quando falamos de “Igreja Invisível”, estamos fazendo alusão a todas as pessoas que foram compradas pelo precioso sangue de Cristo, sendo propriedade exclusiva Dele. Esta igreja é invisível aos olhos humanos, mas totalmente visível aos olhos do Deus que a escolheu. Esta é a Igreja de Cristo, Seu Corpo e Sua Noiva; a santa e sem mácula Igreja Universal, que é coluna e baluarte da verdade. Fora desta, certamente, não há salvação.
Por outro lado, o que chamamos de “Igreja Visível”, “[...]consiste dos que fazem profissão de fé, são batizados e arrolados como membros da igreja institucional” [6]
Obviamente é possível ser salvo sem fazer parte da “Igreja Visível”, isto é, de uma igreja local, organizada. Existem muitos casos em que isto, de fato, acontece seja por motivo de enfermidade ou num contexto de perseguição religiosa, por exemplo. Também é verdade que, como já dissera Douglas Meador: “Ser membro de uma igreja não faz de alguém um cristão, da mesma forma que ter um piano não faz de alguém um músico”[7].
Todavia, um cristão verdadeiro ansiará por estar em comunhão e inserido em uma igreja local. O ato de congregar sempre foi uma característica marcante das comunidades cristãs. Na verdade, o Novo testamento está repleto de referências que tratam de como a Igreja Cristã se organizava desde os seus primeiros anos. Vemos a elaboração de documentos de fé (Rm 10:9; 1Jo 4:15; At 8:36,37; Fp 2:5-11, etc.); a estruturação da igreja, possuindo diáconos, presbíteros, mestres, etc. (1Tm 3:1; 5:17,19; Tt 1:5; Fl 1:1; 1Tm 3:8,12; 5:9; 4:14); a instituição e os passos do processo disciplinar (Mt 18:15-20); a ordem de Cristo para que os discípulos se reunissem e rememorassem o seu sacrifício através da Ceia (Lc 22:14-20); a referência às “igrejas” como corpos estabelecidos nas cidades (At 15:41; 16:5; Rm 16:4,16; 1Co 7:17; 11:16; 14:33; 16:1; etc.).[8]
Na igreja nos reunimos para adorar a Deus, buscamos o crescimento mútuo, aprendemos a amar uns aos outros, servir e ali ser instruídos. Na igreja somos fortalecidos através da pregação da palavra, somos corrigidos e exortados para que nos tornemos mais parecidos com Cristo e crescemos em graça quando são administrados o batismo e a ceia. Sem dúvidas, sabemos que é a vontade de Deus que estejamos envolvidos em uma igreja local, como já afirmava o autor da carta aos Hebreus: “Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas encorajemo-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia”. (Hb 10:25 – NVI)
Disto concluímos que fora da Igreja Visível há salvação, porém da Invisível não há. Ainda assim, fazer parte da Igreja Invisível nos levará a congregarmos na Igreja Visível, como afirma coerentemente Vance Havner: “Creio em lealdade à igreja local. Não creio na teoria da igreja invisível que nos torna invisíveis na igreja”[9].





Notas




[1] CENSO DEMOGRÁFICO 2010. Características gerais da população, religião e pessoas com deficiência. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. Disponível em: < ftp://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Demografico_2010/Caracteristicas_Gerais_Religiao_Deficiencia/caracteristicas_religiao_deficiencia.pdf>. Acesso em: 16 out. 2015. p. 91.

[2] Ibidem, p. 91.

[3] NICODEMUS, Augustus. O ateísmo cristão e outras ameaças à Igreja. São Paulo: Mundo Cristão, 2011, p. 153.

[4] MEISTER, Mauro; CARVALHO, Tarcízio. Debate. [maio 2014]. Mediador: Augustus Nicodemus. São Paulo: CPAJ, 2014. Debate realizado pelo Programa Academia em Debate do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper.

[5] NICODEMUS, Augustus. Op., cit., p. 156.

[6] SPROUL, R. C. Verdades essenciais da fé cristã. 3º caderno. 4ª ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010, p. 07.

[7] BLANCHARD, John. E-book. Pérolas para a Vida. São Paulo: Vida nova, 1993, p. 216.

[8] Para maiores detalhes conferir: NICODEMUS, Augustus. Op., cit., pp. 157-161.

[9] BLANCHARD, John. Op., cit., p. 215.

5 comentários:

  1. O site é Presbiteriano? atribuiu a revolta dos "desigrejados" apenas às práticas errôneas dos Pentecostais? Não há erros na IPB? Pastores Maçons assumidos e a parceria direta da mesma com os Maçons, sabendo do seus ritos praticados, sem contar na arrogância por, apenas acharem, que são mais inteligentes ou intelectuais, a soberba pela maioria ser de classe alta e esfregar na cara dos outros as "boas obras" feitas, falo isto por conhecimento de causa...Apenas peço-lhes que não atribuam erros apenas apenas às denominações que lhes convém, ou generaliza "Igrejas Evangélicas" ou cita o erro das denominações uma a uma.

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  2. Obrigado pelo comentário, sr. desconhecido.


    Seria bom ler o texto antes de comentar, pois falei justamente sobre isso... vou citar a porção novamente:

    "A ideia aqui não é propor que a igreja institucional e organizada não tenha problemas. É inegável as muitas deficiências que ela apresenta e nisto, sem dúvidas, os “desigrejados” têm razão. Infelizmente, quando nos debruçamos sobre a igreja organizada temos encontrado características que não condizem com aquelas que ela deveria ter e que são apresentadas nas Sagradas Escrituras. Entre elas pode-se destacar: Os escândalos sistemáticos que dia após dia surgem no seio da igreja institucional; O controle, quase que hipnótico, que muitos líderes exercem sobre os seus liderados causando-lhes danos emocionais, financeiros e, até mesmo, físicos; Os jogos políticos e de poder; A ênfase nas questões de ordem administrativa, em detrimento daquelas ligadas, de fato, à vida e a espiritualidade da igreja; A afeição mais pelas coisas do que pelas pessoas; O materialismo e o consumismo que arrasam os arraiais evangélicos; A teologia desvinculada da piedade cristã; para mencionar apenas algumas.
    Estas características danosas estão amplamente presentes nos vários agrupamentos evangélicos brasileiros e transitam desde as chamadas Igrejas Históricas e Tradicionais, passando pelos Pentecostais Clássicos e chegando aos Neopentecostais e a herética Teologia da Prosperidade. Donde concluímos que o fenômeno dos “desigrejados” não é produto simplesmente dos desiludidos vindos de igrejas neopentecostais (ainda que seja possível inferir que estas têm se apresentado como o principal motor deste fenômeno), mas de outros grupos de evangélicos".

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  3. E, não... o site não é presbiteriano.

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  4. Essa "Igreja Visível" é bíblica? Cristo citou essa "igreja"? Paulo ensinou sobre essa "igreja"? Texto sofismático vindo de um defensor da instituição pragmática que nunca foi projeto de Deus. As passagens bíblicas "Deus não habita em templos feitos por mãos de homens" e Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, estarei entre vós" lhe é familiar?!?!?!
    Já me ofendi com o termo "desigrejado", mas hoje vendo qual o sentido que vocês, marionetes do sistema farisaico, dão à palavra, sabe que me sinto até feliz e aliviado por não pertencer mais a esse circo gospel, onde pregam que mentira é verdade e verdade é mentira.
    Cuidado com o que Jesus falou em Mateus 7.21!!!

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  5. Não frequento igreja porque não encontrei perto de onde moro uma igreja séria.

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