sábado, 5 de janeiro de 2013

A “Síndrome de Adão”



por Rafael de Lima

A queda do homem registrada no livro das origens nos apresenta a maior catástrofe já ocorrida na história humana. As consequências funestas deste primeiro ato de transgressão se reproduziram, e hoje, ainda mais se reproduzem, a uma proporção espantosa. A própria natureza agoniza em virtude da entrada do pecado no mundo: “Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora” (Rm 8:22 – ARA)[1].

Ao entrar no mundo o pecado trouxe consigo suas muitas facetas. Uma das primeiras é aquela que chamo aqui de “Síndrome de Adão”. Em Gênesis capítulo 3 nós temos o relato da queda do homem. Já naqueles primeiros instantes nós percebemos como esta síndrome tem atuado no ser humano caído. E o que seria esta Síndrome de Adão? Seria a negação da culpa e a atribuição desta a um terceiro.

No relato nós temos que quando Adão fora indagado por Deus nos seguintes termos: “Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses?” (Gn 3:11b – ARA), a primeira atitude deste não foi de reconhecimento da culpa, mas de atribuição desta à mulher: “A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi” (Gn 3:12b – ARA). A mulher, por sua vez, já enfermada pela síndrome, não titubeou em se isentar do erro atribuindo este como decorrência da astúcia da serpente: “A serpente me enganou, e eu comi” (Gn 3:13c – ARA).

Adão era o nosso representante legal diante de Deus e como tal, o estigma do erro, foi transferido a todos os seus descendentes, isto é, a toda a raça humana. A partir daí o pecado, e, consequentemente, a Síndrome de Adão, tem sido como uma doença hereditária impregnada e inerente a toda espécie humana.

Em nossos dias, alguns grupos, sobretudo aqueles que têm adotado uma perspectiva neopentecostal, tem reinventado a Síndrome de Adão e dado uma nova roupagem a esta, ao ensinar que toda a mazela da qual o homem é acometido é causado por um espírito maligno, nunca são os seus pecados. Desta forma, se alguém é invejoso está sendo alvo de um espírito de inveja; se é imoral, está sendo alvo de um espírito de prostituição; se é arrogante, está sendo alvo de um espírito de arrogância, etc. Nunca é o homem e os seus pecados, sempre são os demônios. Tais “igrejas” ensinam o homem a nunca se arrependerem de seus pecados, afinal de que eles vão se arrepender se não são os culpados e sim os espíritos malignos?

É válido abrir um parêntese e mencionar que é inegável a participação dos demônios como causadores das inúmeras desgraças que sucedem sobre a vida humana, todavia o pecado não deve ser posto em segundo plano, ele é, na verdade, a primeira e a grande causa das moléstias do mundo.

Diferente do primeiro homem que ao ser indagado por Deus acerca do seu pecado prontamente culpou sua mulher, e esta, por sua vez, à serpente. Diferente também destes grupos que ensinam o homem a se eximirem da culpa, Cristo nos ensina o que se deve fazer: “Arrependei-vos” (Mt 4:17); “Não peques mais” (Jo 5:15; Jo 8:11).

Assim como Adão era o representante de uma raça, e esta trouxe sobre si as consequências do seu ato de transgressão, também Cristo é o representante de uma raça eleita, e esta tem sobre si a remissão da nódoa do pecado por meio da realização de seu grandioso ato de justiça (Rm 5:12–21).

A vontade de Deus é dar vida plena ao homem. O primeiro passo a ser dado, indiscutivelmente, não é se eximir da culpa, mas reconhecê-la, arrepender-se e lutar para não voltar a praticá-la.

“Ninguém vai para o porto seguro da glória sem navegar pelo canal estreito do arrependimento” (William Dyer)[2].


Notas


[1] A versão utilizada neste artigo é a Almeida Revista e Atualizada (ARA) publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil.

[2] BLANCHARD, John. E-book. Pérolas para a Vida. São Paulo: Vida nova, 1993, pp. 23,24.

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