sábado, 13 de outubro de 2012

Aprendendo com o escritor desconhecido: Lições em Hebreus 11



por Rafael de Lima

(HB 11:33-40)

Entre os grandes temas oriundos da Reforma Protestante podemos destacar o Sola Scriptura, que propõe que o Livro Sagrado deve ser a nossa única regra de fé e de procedimento. As Sagradas Escrituras devem ser o nosso guia e através delas devemos ser exortados e ensinados afim de que andemos de forma íntegra e sábia enquanto vivermos neste mundo.

Os versos 33 a 40 do capítulo 11 de Hebreus nos apresentam lições valiosíssimas, que muitas vezes temos esquecido. No mundo pós moderno em que vivemos devemos retornar a tais lições a fim de conhecermos o real sentido das promessas de Deus para nossas vidas.

Antes de tudo é importante entendermos qual o contexto histórico em que era escrito o livro de Hebreus. O autor é incerto (Paulo, Barnabé e Apolo); a data anterior ao ano 70 A.D.; o tema é apresentar a superioridade de Cristo e da Nova Aliança com respeito à Antiga (a Lei), visto que muitos cristãos estavam a ponto de retornar aos rudimentos da lei (ver também: Gl 4:9), o autor nos adverte a permanecer firmes na fé cristã.

Dito isto, analisemos melhor o capítulo em questão, tomando como exame a realidade expressa no texto e uma dura realidade que tem invadido muitas igrejas: o culto à benção.

É comum encontrarmos mensagens triunfalistas e de conquista de bênçãos, utilizando-se como base o primeiro verso do capitulo 11 de Hebreus. Afirma-se que nós temos que crer para alcançarmos a benção, que nós devemos materializar a graça que desejamos alcançar. Afirma-se ainda que, quando não alcançamos aquilo que desejamos é devido à falta de fé. Fala-se muito em declarar a Palavra e tudo irá se cumprir, fala-se em determinar a benção.

Sem dúvida, estes são tempos trabalhosos, onde o verdadeiro evangelho tem sido deixado de lado. Neste falso cristianismo, os papéis se inverteram, não somos mais nós os servos, e sim Deus é quem tem a obrigação de nos servir.

Não aceitamos as provações, murmuramos em meio às provas, não compreendemos que há um propósito de Deus em meio à dificuldade, estamos distantes do que Tiago afirma em sua carta: “Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações” (Tg 1:2 – NVI) [1]. Não temos considerado os vários textos que nos lembram do “Dia mau”: “Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: Não tenho neles contentamento”. (Ec 12:1 – ACF) [2]; “Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes” (Ef 6:13 – ACF). Textos como estes não costumam fazer parte dos nossos favoritos.

Voltemos aos versos de Hebreus e vejamos como foram avaliados estes Heróis da fé: “receberam bom testemunho” (v. 2); “Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles”; “(Deus) lhes preparou uma cidade” (v. 16); “o mundo não era digno deles” (v. 38)”.

Humanamente falando, deveríamos considerar tais homens como sendo os maiores merecedores de receber bênçãos aqui na terra, como detentores das maiores conquistas. E em parte o foram. Os versículos 33 a 40 (versão NVI), nos apresentam dois tipos de listas. Primeiro nos apresentam homens e mulheres que: “[...] pela fé conquistaram reinos, praticaram a justiça, alcançaram o cumprimento de promessas, fecharam a boca de leões, apagaram o poder do fogo e escaparam do fio da espada; da fraqueza tiraram força, tornaram-se poderosos na batalha e puseram em fuga exércitos estrangeiros. Houve mulheres que, pela ressurreição, tiveram de volta os seus mortos”.    

Do mesmo modo, temos homens e mulheres que também pela fé: “[...] foram torturados e recusaram ser libertados, para poderem alcançar uma ressurreição superior; outros enfrentaram zombaria e açoites; outros ainda foram acorrentados e colocados na prisão, apedrejados, serrados ao meio, postos à prova, mortos ao fio da espada. Andaram errantes, vestidos de pele de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos e maltratados. O mundo não era digno deles. Vagaram pelos desertos e montes, pelas cavernas e grutas. Todos estes receberam bom testemunho por meio da fé; no entanto, nenhum deles recebeu o que havia sido prometido. Deus havia planejado algo melhor para nós, para que conosco fossem eles aperfeiçoados”.

Agora analisemos com maior cuidado o que nos diz o verso 39: “Todos estes receberam bom testemunho por meio da fé; no entanto, nenhum deles recebeu o que havia sido prometido.” Ponto que é uma repetição do verso 13, que afirma: “Todos estes viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-no de longe e de longe o saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra”.

Na verdade, longe de pensarmos que estes homens e mulheres não foram vitoriosos, nós devemos observar que estes foram os grandes vitoriosos, eles compreenderam de fato, a sua missão na terra. Entenderam que neste mundo eram peregrinos, como Paulo afirma: “A nossa cidadania, porém, está nos céus, de onde esperamos ansiosamente o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3:20 – NVI).

O verso 16 nos mostra claramente isto: “Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, e lhes preparou uma cidade”.

Estes homens e mulheres compreenderam que a maior benção que viria através da sua fé não teria um cumprimento terreno, mas celeste. Eles padeceram aqui nesta terra porque viam pela fé onde se daria o real grande cumprimento das promessas!

É inegável que boa parte dos cristãos estão muito distantes desta realidade. A busca desenfreada por bênçãos materiais tem marcado nossa geração. Algo que destoa muito do que tem sido apresentado pelos heróis da fé.
Por fim, quais são as lições que podemos aprender da leitura destes versículos? Vejamos algumas:

     1.    Devemos ser como os bereanos, e examinar o que realmente dizem as Escrituras. (At 17:11; Mt 22:29)
     2.    Devemos ler a Bíblia não com o intuito de massagear o nosso ego, descontextualizando muitas vezes o sentido correto do texto, a fim de termos as nossas vontades sustentadas. Devemos ler a Bíblia e observar o que diz a Palavra de Deus, ainda que esta não esteja sustentando aquilo que gostaríamos.
     3.    Devemos voltar ao verdadeiro Evangelho, abrindo mão deste pseudo-cristianismo, que tem sido apresentado pelos tele-evangelistas, entendendo que as provas e as decepções fazem parte da caminhada cristã. 
     4.    Devemos voltar a manter o foco no céu, pois nesta terra somos peregrinos, entendendo que nas regiões celestes é que serão cumpridas, de fato, todas as promessas (1 Cor 15:19).



Notas


[1] Nova Versão Internacional (NVI) publicada pela International Bible Society.

[2] Almeida Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original (ACF) publicada pela Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

2 comentários:

  1. Muito boa reflexão! Realmente vivemos estes dias em que bençaõs são confundidas com oisas materiais.

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