domingo, 22 de julho de 2012

Evangélicos em crise


por Rafael de Lima

Diante do crescimento tão mencionado e que tem ocorrido nas últimas décadas ao que se convencionou chamar de público evangélico brasileiro, parece paradoxal falar em crise entre os evangélicos. O último censo atesta que este segmento chegou à cifra de 22,2% da população ainda no ano 2010[1]. Persistindo essa curva de crescimento, dentro de alguns anos os evangélicos serão maioria no país.

Vários missiólogos apontam o Brasil como um grande celeiro de missionários para o mundo. Para algumas igrejas ou para alguns líderes, não é difícil encher um estádio de futebol ou colocar uma multidão de pessoas marchando pelas ruas das grandes cidades, no que propõe ser uma demonstração de fé.

O crescimento dos evangélicos em solo brasileiro é festejado por muitos, dentro e fora do país, e tem despertado o interesse de vários teólogos e estudiosos da Ciência das Religiões. Então, onde está a crise?

Creio que seja possível destacarmos algumas questões extremamente problemáticas e que não podem passar despercebidas, questões estas que nos remetem à realidade tão palpável desta crise, mas que, infelizmente, têm sido rejeitadas pela maioria das lideranças evangélicas do país.

Primeiramente, creio que exista uma clara crise identitária. No Evangelho escrito por Mateus Cristo nos adverte: “Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte” (Mt 5:13-14 – ACF)[2]. A grande verdade é que não existe mais uma identidade, uma distinção, entre o cristão e o não cristão. A mídia noticia dia a dia um cantor ou ator famoso que hoje se diz evangélico, mas que amanhã faz um filme de conteúdo pornográfico ou é pego bêbado em um bar. Falta-nos uma identidade.

            Vivemos também uma crise ética. Creio que esta crise esteja relacionada primordialmente com o problema do amor ao dinheiro. Esta mazela tem feito muitos líderes e membros de igrejas evangélicas a se embrenharem em empreitadas envoltas em corrupções e politicagens imundas. Esquecendo a admoestação de Cristo que afirmava: “Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom [isto é, o dinheiro]” (Lc 16:13 – ACF), muitos têm abandonado o bom senso e os bons costumes, não considerando o que é certo e ético, não prezando pelo nome e pelo significado de ser cristão.

            Por fim, poderíamos mencionar também, e esta tão patente, uma crise doutrinária. Percebemos uma ênfase demasiada na questão dos milagres. Já não se considera quem é o mensageiro ou mesmo o que é pregado. A única coisa que basta é que aconteçam sinais! A própria Bíblia adverte a estes: “Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade” (Mt 7:22-23 – ACF). Da mesma forma, temos presenciado um número impressionante de heresias sendo pregadas nos púlpitos, ainda muitas outras associações feitas entre líderes ditos evangélicos e muitas seitas. Paira sobre muitas igrejas evangélicas um verdadeiro analfabetismo teológico. Eis a advertência já proferida pelo apóstolo Paulo: “Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho; E que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si (At 20:29-30 – ACF). As pregações e os louvores têm enfatizado a cada dia mais mensagens para o ego (veja o artigo: Todo louvor seja dado aos homens). “Eu” tem sido a palavra de ordem dos púlpitos. Muitas vezes o evangelho tem sido utilizado simplesmente como meio de auto promoção.

            A conclusão não pode ser diferente da reflexão já realizada pelo reverendo Warren Wiersbe quando afirmava: “Minha conclusão é que o tipo errado de pregadores, compelido por motivos errados, criou o tipo errado de cristãos mediante a pregação da mensagem errada” [3]. Desta forma, creio que uma reflexão profunda na área doutrinária deva ser a primeira medida a se tomar a fim de que esta conjuntura tão problemática possa ser aos poucos sendo corrigida. A partir de uma doutrina sã poderemos corrigir outras arestas e desta forma teremos um igreja evangélica numerosa e não inchada, que vive em um cenário espiritualmente saudável e não num contexto de crise.  


Notas


[1] IBGE. Censo 2010: número de católicos cai e aumenta o de evangélicos, espíritas e sem religião. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=2170&id_pagina=1>. Acesso em: jul. 2012.

[2] A versão utilizada neste artigo é a Almeida Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original (ACF) publicada pela Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

[3] WIERSBE, Warren W. A Crise de Integridade. São Paulo: Vida, 1989, p. 74.

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