domingo, 24 de junho de 2012

O cristão e a igreja local


por Rafael de Lima

Indubitavelmente, vivemos tempos em que a contestação das bases tradicionais, seja em qual for a área, tem ocorrido de forma extremamente habitual. É bem verdade que a revisão de certas bases já estabelecidas é algo positivo, desde que seja feito com equilíbrio e maturidade. Em momentos como este deveria se seguir a regra de não rejeitar algo apenas por ser velho, nem aceitar algo apenas por ser novo. Tudo deve ser bem analisado a fim de que se tome a decisão correta e se abandone aquilo que se tornou antiquado e se adote algo mais contextualizado.

Dito isto, foquemos nossa reflexão com respeito a qual deve ser o posicionamento do cristão com respeito à igreja local.

A sociedade pós moderna tem sido marcada por um intenso emaranhado de visões e concepções de mundo. Não existe mais a verdade. De fato, tudo e nada pode ser verdade, dependendo da visão que se adote.

Quando olhamos para a igreja cristã protestante e evangélica percebemos, do mesmo modo, o desenvolvimento de muitas concepções. Entre estes vários pontos de vista, encontramos aqueles que têm questionado, direta ou indiretamente, o conceito e a essência do ser igreja. Sem dúvida, é válido tecermos algumas considerações com respeito a este tema.

Sabemos que quando falamos da Igreja, estamos fazendo uma alusão a todas as pessoas que foram compradas pelo precioso sangue de Cristo, sendo propriedade exclusiva Dele. Esta igreja é invisível aos olhos humanos, mas totalmente visível aos olhos do Deus que a escolheu. Sabemos, do mesmo modo, da existência de uma igreja visível “que consiste dos que fazem profissão de fé, são batizados e arrolados como membros da igreja institucional” [1]. A pergunta que podemos fazer é: diante da conjuntura atual, ainda existe espaço para esta igreja institucional?

Quando olhamos para a realidade atual temos presenciado os primeiros passos em direção ao abandono das reuniões cristãs. Muitos têm preferido o conforto do seu sofá ou de sua cama, visto que, agora, os cultos têm sido transmitidos por rádio, pela televisão e também pela internet. Não existe mais a necessidade de estar envolvido em nenhuma comunidade cristã. Você não precisa mais se deslocar de sua casa e ir até a igreja, basta ligar a TV, o rádio ou o computador. Todavia, podemos ainda questionar: é este um padrão bíblico?

O médico Lucas nos apresenta um resumo impressionante dos primeiros anos do cristianismo e que nos fornece a base do que realmente significa reunir-se como igreja: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar” (At 2:42-47 – ACF)[2].

Este relato nos mostra a relevância do “estar junto”, do comungar, do partilhar, do partir do pão. Mostra-nos a importância de nos reunirmos como igreja! É bem verdade que, como já dissera Douglas Meador: “Ser membro de uma igreja não faz de alguém um cristão, da mesma forma que ter um piano não faz de alguém um músico”[3]. Todavia, é indispensável, e sempre foi uma característica marcante das comunidades cristãs, o ato de congregar.

Na igreja, nos reunimos para adorar a Deus, buscamos o crescimento mútuo, aprendemos a amar uns aos outros, corrigir, exortar, servir e instruir. Sem dúvidas, sabemos que é a vontade de Deus que estejamos envolvidos em uma igreja local, como já afirmava o autor da carta aos Hebreus: “Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia” (Hb 10:25 – ACF).

Por fim, vale a afirmação extremamente coerente de Vance Havner ao asseverar: “Creio em lealdade à igreja local. Não creio na teoria da igreja invisível que nos torna invisíveis na igreja”[4].

     

Notas


[1] SPROUL, R. C. Verdades essenciais da fé cristã. 3º caderno. 4ª ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010, p. 07.

[2] A versão utilizada neste artigo é a Almeida Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original (ACF) publicada pela Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

[3] BLANCHARD, John. E-book. Pérolas para a Vida. São Paulo: Vida nova, 1993, p. 216.

[4] BLANCHARD, John. Op., cit., p. 215.

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