domingo, 29 de abril de 2012

O cristão e os RPG’s



por Rafael de Lima

O século 21 tem nos apresentado um fenômeno interessante com respeito ao mundo do entretenimento. Os jogos têm tomado conta do mercado e têm feito frente até mesmo ao comércio cinematográfico. De acordo com reportagem da Revista Exame, no Reino Unido, por exemplo, “os jogos abocanharam 40,2% do mercado do entretenimento, enquanto os filmes ficaram com 27,6% e a música 22,2%[1]. Estima-se que dentro de alguns anos muitas pessoas abandonarão o mundo real e passarão a viver seus relacionamentos num mundo virtual através dos jogos online a cada dia mais elaborados e complexos.

Deixando de lado os jogos eletrônicos, chegamos a uma modalidade de jogo (de mesa) conhecida como RPG – Role Playing Game – (Não! Não estamos falando do método de fisioterapia conhecido como Reeducação Postural Global!), que em português seria Jogo de Interpretação de Papéis ou Jogo de Interpretação de Personagens. Eis a definição:

Consiste na união do conceito de teatro com as regras de um jogo, onde temos a interpretação de personagens ficcionais controlados pelo seu respectivo jogador. No teatro, os atores decoram seu script - conjunto de ações, gestos, falas... - e interpretam personagens de ficção, seguindo o enredo pré-definido pelo autor. Em um jogo, as pessoas tomam decisões limitadas pelas regras, para ultrapassar desafios, ser melhor do que seus adversários e vencer o jogo. Quando se une o que há de melhor nesses dois universos, tem-se o RPG.[2]

O cenário mais comum seria este: um grupo de jovens sentados no chão ou numa mesa, com alguns papéis e dados nas mãos, falando coisas estranhas. Na verdade, a lógica do jogo é simples. Primeiramente, temos o jogador chamado de narrador ou mestre. Ele será responsável por construir e apresentar uma história aos outros jogadores, estes últimos serão os personagens da história contada pelo narrador, atuando como intérpretes dos personagens criados por eles e registrados antecipadamente num tipo de ficha que deverá conter todas as informações do personagem. O jogo funciona como uma peça de teatro, todavia, diferente desta, não existe um roteiro a ser seguido, a história vai se desenvolvendo de acordo com o andamento do jogo e toda a história se desenrola na mente dos jogadores. Não existem vencedores ou perdedores, apenas conta-se uma história. O melhor jogador não é o que tem o personagem mais forte, mas o que melhor interpreta seu personagem.

Os RPG’s têm tido notável incentivo do MEC como relevante forma de ensino, visto que tal modalidade de jogo proporcionaria um importante desenvolvimento do raciocínio, imaginação, criatividade e cooperação[3].

Deixando um pouco de lado todas essas definições, pensemos um pouco sobre qual deve ser o posicionamento do cristão com respeito ao RPG. Posso falar acerca disto de forma relativamente tranquila visto que durante boa parte da minha infância e adolescência estive envolvido neste mundo (há cerca de sete anos que não me envolvo em nenhuma campanha de RPG), como jogador e também como narrador.

Do que já vi de mais negativo nesta modalidade de jogo de mesa, poderia destacar que, apesar de não ser uma característica determinante do jogo, visto que o RPG pode abordar qualquer tipo de história, em qualquer ambiente, à escolha dos jogadores, normalmente, alguns RPG’s, apresentam níveis elevados de ocultismo, satanismo, bruxaria, espiritismo, sensualidade, etc.

Apenas para justificar estas questões vejamos: no livro clássico de RPG Vampiro: A Idade das Trevas, em seu nono capítulo intitulado Antagonistas, nós temos uma bela aula de satanismo. Seguem alguns pontos que são abordados no livro: Os Demônios e seus parentes Infernais; Poderes Demoníacos; Hospedeiros Infernais; Cão Demoníaco; Diabretes; Íncubo/Súcubo; Exemplos de demônios; Servidor Guerreiro; Sedutor[4].

Outro ponto problemático que percebo que tem acometido alguns jogadores de RPG seria a confusão que é causada na mente de alguns destes com respeito à relação da realidade com a fantasia. Alguns jogadores têm sido extremamente influenciados por seus personagens e acabam adotando características destes. De fato, novamente é válido afirmar que tal ponto não é algo determinante do jogo, mas que tem sido possível perceber em alguns jogadores. O próprio livro Vampiro: A Idade das Trevas faz uma advertência acerca disto, com o intuito de combater este problema:

Aconselha-se cautela ao leitor. Os temas e assuntos descritos nesse jogo podem ser perturbadores para alguns. Apesar de nosso propósito não ser o de ofender, nossa utilização do Vampiro como uma metáfora e como instrumento de narrativa pode ser mal-interpretada. Para deixar bem claro: vampiros não são reais. Sua existência está limitada somente ao que eles nos ensinam sobre a condição humana e sobre a fragilidade e o esplendor que chamamos vida (HARTSHORN, 1998, p. 04)[5].

Seria possível trazer inúmeras citações que deixariam muitas pessoas perplexas, todavia a ideia é apenas exemplificar algumas questões problemáticas do jogo.

E o cristão, como deveria se posicionar com este respeito? O apóstolo Paulo nos adverte: “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma” (I Cor 6:12 – ACF)[6]. Sem dúvida, se embrenhar num mundo que enfatize coisas ocultas, bruxaria, satanismo, etc, não é algo que seja lícito ao cristão. Na verdade, as consequências advindas desta escolha podem ser desastrosas para a vida espiritual.

Outro fato a se pensar está em torno da administração do nosso tempo. Novamente, o apóstolo Paulo nos aconselha: “Remindo o tempo; porquanto os dias são maus” (Ef 5:16 – ACF). Seria útil dedicar certo tempo do nosso dia em um jogo? Essas horas estariam sendo bem empregadas?

A contrapartida destas questões está em torno do texto: “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus” (I Cor 10:31 – ACF). De fato, eu não seria louco em afirmar que jogar algo dotado de satanismo poderia ser utilizado para glorificar a Deus. Por outro lado, adotar um jogo com conteúdo capaz de produzir uma reflexão naqueles que se reúnem pra criar essa história pode sim, ser meio de glorificar a Deus.

Pessoalmente, creio que o estilo de jogo em si pode ser utilizado como forma de abordagem e ensino, todavia o conteúdo é o que deve ser considerado. Apesar de ser um ponto polêmico e que certamente será bastante criticado, creio que seja possível utilizar-se o RPG para ensinar crianças e adolescentes com respeito a temas ligados a histórias bíblicas ou questões ligadas ao cristianismo de forma geral. A título de exemplo, poder-se-ia pensar o RPG como método de ensino a fim de se implantar uma realidade mais palpável na mente dos jovens com respeito à igreja que sofre perseguição em certos países, fazendo com que estes vivenciassem, ao menos de forma imaginária, as aflições que seus irmãos sofrem em outros lugares do mundo.

Não há problema e nem é pecado nós nos divertirmos, seja lendo um bom livro, presenciando a apresentação de uma peça de teatro, ouvindo uma boa música ou assistindo a um bom filme, seja vendo a uma partida de futebol, ou jogando uma partida de xadrez ou mesmo de RPG. O real problema está no conteúdo destas coisas. Existem livros que são lícitos aos cristãos, peças de teatro que são lícitas aos cristãos, músicas que são lícitas aos cristãos, filmes que são lícitos aos cristãos e jogos de RPG que são lícitos aos cristãos (da mesma forma, existem muitos outros que não são lícitos e nem convém aos cristãos!). O ponto a se pensar é que nenhuma destas coisas deve ser mais importante, e de maneira nenhuma podem tomar o tempo que seria dedicado à vida devocional. Tais questões, e todas as outras da nossa vida (inclusive o serviço cristão), não podem tomar o tempo que é devido apenas a Deus.

“A adoração vem antes do serviço, e o Rei, antes dos negócios do Rei” (BLANCHARD, 1993, p. 05)[7]



Notas


[1] VIDEOGAMES SUPERAM FILMES EM VENDAS NO REINO UNIDO. São Paulo, [2012] Disponível em: <http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/videogames-superam-filmes-em-vendas-no-reino-unido>. Acesso em: 28 de abril de 2012.

[2] O QUE É RPG? São Paulo, [2009]. Disponível em: <http://www.rpgonline.com.br/o_que_e_rpg.asp>. Acesso em: 28 de abril de 2012.

[4] HARTSHORN, Jennifer [et al]. Vampiro: A Idade das Trevas: Um RPG de Horror Gótico. São Paulo: Devir, 1998.

[5] HARTSHORN, Jennifer [et al]. Op., cit., p. 04.

[6] A versão utilizada neste artigo é a Almeida Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original (ACF) publicada pela Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

[7] BLANCHARD, John. E-book. Pérolas para a Vida. São Paulo: Vida nova, 1993

14 comentários:

  1. Amem amados!

    Obrigado pelo comentário...

    Soli Deo Gloria

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  2. Olá, irmãos.

    Apesar do tema aqui ser RPG de mesa, apresentamos um RPG para computador totalmente baseado na Bíblia. Trata-se do Caminho Estreito, o qual pode ser baixado gratuitamente na página oficial do game:

    http://www.internautascristaos.com.br/caminho-estreito

    Deus vos abençoe.

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  3. Ok Internautas Cristãos!

    Obrigado pela dica... quando tiver um tempinho vou fazer o download e testar.

    Graça e Paz

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  4. Rafael, parabéns pelo seu artigo, reflete exatamente o que penso, com respeito ao RPG, ou seja, o problema não está no jogo mas sim nos cenários. Como acontece com o Chamado Mundo das Trevas (Vampiro, Mago, Lobisomen e outros títulos) que você citou muito bem.
    Além disso domínio próprio e sabedoria são essenciais.
    Que Deus o Abençoe

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  5. Obrigado pelo comentário Alê...

    Deus abençoe a sua vida!

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  6. como ajudar minha filha que fica jogando isto no celular ela esta muito dificil esta atrapalhando seu rendimento escolar de trabalho e convivencia meu email edna.miria@hotmail.com

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    1. Obrigado pelo comentário

      Em breve lhe mando um email. Por favor, aguarde.

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    1. Isso não serei eu que lhe direi. Pecado é o que a Bíblia diz que é pecado. Se na sua consciência você tem dúvida se deve ou não jogar, então não jogue. Se jogar lhe impede de estar próximo de Deus, então não jogue. Leia as Escrituras e busque respostas nela. Obrigado por comentar e volte sempre.

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  8. Boa noite pessoal,primeiramente gostaria de parabenizar o autor do texto pois traz realmente o assunto em si,coisa que muita gente não faz,antes de me converte eu sempre joguei o rpg de mesa,como Vampire,Gurps,3D&T entre outros e após a minha conversão fiquei meio sem saber o que fazer,mais ai tomei para mim a seguinte ideia do ao.paulo"..me fiz de louco para ganhar os loucos.."e comecei a desenvolver um rpg com uma temática cristão onde a temática da campanha(ou seja o cenário do jogo)se passava nas aventuras de Davi desde sua ascensão ao trono e sua vida,onde vivenciávamos diversas situações bíblicas que Davi e seus companheiros passaram pelo ponto de vista deles.w foi ai que me surprendi os meus amigos que nunca foram de ir na igreja começaram a ler as histórias bíblicas para entender mais o contexto e dessa forma jogar melhor,de quebra eu marcava um outro dia a parte para que todos pudessem tirar suas dúvidas sobre a bíblia,em resumo hoje 6 dos 9 que jogam comigo aceitaram a cristo e estão caminhando na igreja.creio que a temática abordada deve ser escolhida com muito cuidado,mais essa foi uma forma que eu usei para ganhar os meus amigos para cristo.

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    1. Muito legal a sua história, obrigado por compartilhá-la conosco. Volte sempre.

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  9. "O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem."

    Mateus. 15:11
    Eu jogava RPG, e como cristão percebi algo. O que prejudica os jogadores é quando eles revelam, nas suas atuações, os seus pontos de vista. Em Mt 15:18,19 Jesus adiverte sobre isso. Os jogadores expõem seus desejos, opiniões e muito mais de acordo com as circunstancias apresentadas. É um jogo que permite estas conversas e as incentiva para desenvolver a historia que está sendo contada. O mal está no individuo. Como ele pretende contar a historia e o que ele quer colocar nela. Então o mal NÃO esta no jogo, mas naqueles que jogam RPG. Assim como o mal de jogar futebol não esta no jogo de futebol, mas o mal esta na PESSOA QUE JOGA OU TORCE.
    Paz e espero ter ajudado a tirar confuzão nesse ponto

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    1. Obrigado pela contribuição. Volte sempre e esteja a vontade para comentar

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