sábado, 17 de março de 2012

Voltando à rude cruz



por Rafael de Lima

É inegável que temos vivido tempos penosos no seio da igreja evangélica brasileira. Abandonamos coisas que nunca deveríamos ter abandonado, adotamos coisas que nunca deveríamos ter adotado. Há muito o que se mudar e muito o que se resgatar.

            Creio que uma das questões que devemos urgentemente resgatar está em torno da doutrina da centralidade de Cristo e de sua cruz, como outrora afirmou Leon Morris: “O cristianismo é uma religião a respeito de uma cruz”. (MORRIS apud BLANCHARD, 1993, p.  90).[1]

            Todavia, como é triste ver que a mensagem da cruz tem estado distante dos nossos cultos. E não apenas das nossas reuniões em comunidade, mas também da nossa vida. Para muitos, a cruz virou apenas um símbolo que se carrega no peito, não se entende o significado tão profundo e tão constrangedor para o homem que advém da cruz. Para tantos outros, entre eles muitos “cristãos ateus”, ela não passa de um mito, uma criação humana, uma insanidade. “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” (I Cor 1:18 – ACF)[2].

Poderíamos questionar porque a mensagem da cruz, muitas vezes, tem sido deixada de lado neste contexto da igreja moderna. Creio que uma das causas seria que quando olho para a cruz, é impossível não reconhecer, “Primeiro: como são grandes meus pecados e minha miséria. Segundo: como sou salvo de meus pecados e de minha miséria. Terceiro: como devo ser grato a Deus por tal salvação” [3]. De fato, a cruz humilha o homem; mostra a nossa depravação; nossa incapacidade; mostra o lugar que por nós era merecido; mostra que sem Cristo não seremos salvos; mostra-nos a santa e justa ira de Deus, que por natureza éramos merecedores (Ef 2:3), sendo derramada sobre Cristo; mostra-nos um amor incompreensível e incalculável. Infelizmente, tais questões não têm norteado e dirigido as reuniões evangélicas atuais, vemos mais mensagens triunfalistas do que mensagens que humilham o homem e que fomentam o arrependimento.

Sem dúvida, a cruz é um grande paradoxo, quem sabe o maior, da doutrina cristã. A partir dela surgem tantas questões que confrontam o nosso eu e esmiúçam o nosso ego, que não há outro lugar para buscarmos a não ser os pés do madeiro. Diante deste paradoxo, poderíamos levantar a seguinte questão: “Como um Deus santo e justo poderia amar um homem imundo e pecador?” Certamente, Deus como sendo o Justo Juiz de toda a Terra não poderia simplesmente anular a punição que por nós era merecida. Se Ele assim procedesse já não seria justo! Mas em Cristo, o Pai satisfez a sua santa ira, Nele sua justiça foi realizada. Não esqueçamos: a salvação chega a nós por graça, mas, certamente, não foi de graça, Cristo pagou um alto preço para que fôssemos salvos!  

Ele tornou-se homem por nossa causa. Ele entrou em nossa situação para agir como nosso Redentor. Tornou-se nosso substituto, tomando sobre si nossos pecados, a fim de sofrer em nosso lugar. Ele também tornou-se nosso campeão, cumprindo a Lei de Deus em nosso favor.
Na redenção, existe uma dupla mudança. Nossos pecados são atribuí­dos a Jesus. Sua justiça é atribuída a nós. Ele recebe o castigo merecido pela nossa humanidade imperfeita, enquanto nós recebemos a bênção por causa da sua humanidade perfeita. (SPROUL, 2010, pp. 72, 73).[4]

            Essa mensagem é tão, aparentemente, surreal, tão incompreensível e louca para os que se perdem, sem dúvidas pelo fato de que ela apresenta-se da forma exatamente oposta ao que o mundo esperaria. O Deus Todo Poderoso, criador de todas as coisas, detentor de toda sabedoria, resolve salvar e redimir o homem caído, e para tal, vem a este mundo, abre mão de sua glória, como homem humilha-se, torna-se escravo, e vai ao madeiro (Fl 2:5-11). E o mundo poderia objetar: “Como Jesus poderia ser Deus, com tamanha demonstração de fraqueza e humilhação?”. E é exatamente nisto que vemos o poderio de nosso Senhor Jesus, é neste ponto que:     

‘Deus mostra que ele é Deus’, [como] explica Althaus, ‘precisamente no fato de que ele é poderoso na fraqueza, glorioso na humilhação, vivo e vivificado na morte’. Somente Deus é grande o suficiente para ganhar perdendo. Somente Deus é amoroso o suficiente para amar o que não pode ser amado. Somente Deus é eterno o suficiente para ser tragado pelo tempo e pela morte e ainda sobreviver para contar como foi. A cruz intensifica o rei divino que bancou o louco para acabar com a loucura do pecado e da morte. (SHAW, 2004, p. 27)[5].

            Voltemos para a rude cruz, façamos o que diz o cântico: “Eu olho para a cruz, e para cruz eu vou...”[6]. Esse madeiro que representa tudo para a nossa existência, que traz de forma única a proclamação da morte e da vida, e essas duas de modo indissociáveis. Essa demonstração de amor tão infinita e gloriosa, tão inestimável e sacrificante, que apenas Deus, a própria essência do amor poderia realizar. Esse amor que nos constrange (II Cor 5:14,15) e que jamais seremos capazes de compreender.

            Sim, voltemos aos pés da velha rude cruz, e que dos nossos lábios nunca cesse o cântico que diz: “Sim eu sempre amarei essa cruz...” [7]. E como não amá-la? Se é por ela que vivemos!

“Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Porque apenas alguém morrerá por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém ouse morrer. Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:6-8 – ACF).


Notas


[1] BLANCHARD, John. E-book. Pérolas para a Vida. São Paulo: Vida nova, 1993.

[2]A versão utilizada neste artigo é a Almeida Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original (ACF) publicada pela Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

[3] URSINO, Zacarias; OLEVIANO, Gaspar. Catecismo de Heidelberg, [2009]. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/catecismos/catecismo_heidelberg.htm>. Acesso em: 16 mar. 2012.

[4] SPROUL, R. C. Verdades essenciais da fé cristã. 1º caderno. 3ª ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.

[5] SHAW, Mark. E-book. Lições de Mestre. São Paulo: Mundo Cristão, 2004.

[6] Trecho da música Quebrantado do Ministério Vineyard Music. Álbum: Quebrantado (2011).

[7] SALMOS E HINOS. Editora Sarah Kalley: Rio de Janeiro, 2008, nº 110.

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