sábado, 31 de março de 2012

A apologética e a evangelização urbana



por Rafael de Lima

Esta é uma questão que, aparentemente, seria muito lógica entre os círculos cristãos: a relevância da defesa da fé no evangelismo, e em destaque aqui, à prática missionária no cenário urbano. Apesar disto, muitos cristãos que atuam ou que pretendem atuar na área de missões urbanas, acham desnecessário o preparo doutrinário e apologético.

Sempre que escuto críticas acerca de não ser tão necessário o preparo e conhecimento apologético e doutrinário na prática do evangelismo urbano, me recordo de uma frase muito feliz de Peter Lewis: “Dizer ‘Esqueça a doutrina, vamos evangelizar’ é tão ridículo quanto uma equipe de futebol que diz ‘Esqueça a bola, vamos continuar o jogo’”. (LEWIS apud BLANCHARD, 1993, p.  132)[1].

Dito isto, pensemos agora no que pode ser observado com respeito ao cenário da cidade neste tempo presente.

Entre as muitas características que tem norteado a sociedade pós moderna, uma nos chama atenção quando se pensa em evangelismo urbano. Esta seria o fenômeno das tribos urbanas, adotando aqui o termo cunhado pelo sociólogo francês Michel Maffesoli.

As tribos urbanas, também conhecidas com subculturas ou subsociedades são compostas de microgrupos que têm como objetivo fundamental fundar redes de amigos com base em interesses comuns. Tais grupos exibem uma concordância de pensamentos, hábitos e maneiras de se vestir[2].

Cyberpunk, Gótico, Dork, Riot grrrl, Nerd, Indie, Vampire Freak, Otakus, From Uk, Scenes kids, Skinhead, Emo, Mod, Psychobilly, Punk, Hip Hop, Grunge, Hippie, Rivethead, Rocker, Roqueiro, Skatista, Rude boy, Soulboy, Tecnossexual, Teddy Boy, Traceur, Clubber, Headbange… a lista é enorme, na verdade, nossa lista estará sempre desatualizada, visto que a mobilidade tem sido uma das marcas destes microgrupos e a cada dia surgem novas destas subculturas.  

Em se tratando do tema da religião, neste contexto “neotribalístico”, não existe uma regra bem estabelecida. Uns são ateus, neo ateus, agnósticos e deístas. Outros aderem às religiões neopagãs como, por exemplo, a wicca. Outros se dedicam ao estudo do ocultismo e de suas vertentes. Ainda outros seguem pela vertente do satanismo. Logicamente, as religiões e seitas mais tradicionais também estão inseridas neste contexto. O que se percebe com isto tudo é a rica variedade ideológica presente nestes grupos.

Deslocando-se um pouco deste emaranhado de subculturas, chegamos a outro contexto bem presente no cenário urbano. Estamos falando de grupos como o dos moradores em situação de rua, das profissionais do sexo, das crianças e adolescentes em situação de risco, etc. Muitos cristãos que pretendem trabalhar com evangelismo no contexto das grandes cidades têm olhado para estes grupos como sendo formado por pessoas ignorantes, desprovidos de intelectualidade e de ideologias. A grande realidade é que quando se tem contato com tais grupos vê-se outra realidade. É comum encontrar-se nestes agrupamentos, pessoas que trazem questionamentos extremamente profundos com respeito à vida, muitos levantam questões, de ordem filosófica, bastante complexas, que requerem do evangelista um conhecimento profundo do Evangelho.

A realidade é que este cenário urbano pós moderno tem requerido a cada dia mais dos cristãos. Requer uma vida de dedicação à oração e ao exame das Escrituras. Estudar estes grupos e subculturas também se mostra como sendo muito relevante, conhecê-los, compreender o que pensam, em que crêem.

A grande verdade é que este evangelismo “fast food”, do “Jesus te ama e eu também”, desprovido de conteúdo e de conhecimento profundo do que realmente seja o Evangelho, já está saturado. O tempo é de se voltar, de fato, ao que diz o Evangelho, àquele que mostra a real situação do homem, a ira de Deus sobre estes e o obra redentora de Cristo, que suportou a justa e santa ira de Deus para que a humanidade pudesse voltar à comunhão com Ele.

É tempo também de nos prepararmos a fim de sermos grandes apologistas cristãos. O apóstolo Pedro nos adverte: “Antes, santificai ao SENHOR Deus em vossos corações; e estai sempre preparados (a todo o momento, em toda circunstância, em todo lugar) para responder (isto é, “defender”. Do grego: apologia – απολογι) com mansidão e temor a qualquer (todos os grupos, segmentos, culturas e subculturas) que vos pedir a razão (explicação lógica, verdadeira e real presente no Evangelho) da esperança que há em vós” (1 Pe 3:15 – ACF) [3].

Por fim, vale a crítica mais uma vez a este evangelismo “fast food”, visto que trabalhar com a evangelização no cenário urbano requer tempo. Estar com estas pessoas, dedicar tempo a conhecê-las, conquistar sua confiança, escutar suas histórias, vivenciar suas dores, traumas e mágoas. Creio que chegamos aqui a um dos pontos centrais do cristianismo, a relação entre a ortodoxia (doutrina/apologética) e a ortopraxia (prática) cristã.

É este equilíbrio que deve buscar o apologista cristão que atua no cenário urbano: conhecer a doutrina cristã e a pô-la em prática. Ser capaz de apontar onde está a ferida, o erro, (através da apologética) e apresentar a cura (através do evangelho prático).



Notas


[1] BLANCHARD, John. E-book. Pérolas para a Vida. São Paulo: Vida nova, 1993.

[2] Para maiores detalhes: MAFFESOLI, Michel. O Tempo das Tribos: O declínio do individualismo nas sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1998.

[3] A versão utilizada neste artigo é a Almeida Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original (ACF) publicada pela Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

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