sábado, 21 de janeiro de 2012

Não se entregue a este Jesus

O erro que se repete: o novo padroeiro da doutrina de Ário



por Rafael de Lima

O erro nunca se apresenta em toda sua nua crueza, a fim de não ser descoberto. Antes, veste-se elegantemente, para que os incautos creiam que é mais verdadeiro do que a própria verdade. (Irineu de Lião)[1]

A igreja cristã tem sido marcada durante os séculos de sua história por longas controvérsias teológicas. O apóstolo Paulo pregava contra aqueles que buscavam retornar as práticas do judaísmo; no século II temos a manifestação do gnosticismo; no século IV emerge o arianismo, etc.

Diante disto, fica evidente que a cristandade tem sofrido inúmeros ataques contra a sua pureza. Uma das doutrinas que mais têm sofrido investidas é a Doutrina da Divindade de Cristo, como Sproul atesta:

Na história da Igreja, houve quatro séculos durante os quais a confissão da divindade de Cristo foi uma questão crucial e polêmica dentro da Igreja. Foram os séculos 4º, 5º, 19 e 20 [acrescentemos aqui o século 21, dado que a obra é anterior]. Visto estarmos vivendo em um século em que as heresias estão assaltando a igreja, urge que a confissão da divindade de Cristo seja resguardada. (SPROUL, 2010, p. 68)[2]

Entre as heresias que surgiram tentando colocar em xeque a divindade Cristo, podemos dar destaque a uma – o arianismo. Vamos entender o contexto.

A polêmica emergiu na cidade de Alexandria, tendo ocorrido vários desacordos teológicos entre Alexandre que era bispo de Alexandria e Ário, um presbítero ilustre da cidade. Justo L. González resume a controvérsia:

Os pontos em debate eram vários e sutis, mas podemos resumir toda a controvérsia à questão de se o Verbo era coeterno com o Pai ou não. A frase principal em debate era se, como dizia Ário: “houve tempo quando o Verbo não existia”. Alexandre dizia que o Verbo sempre existira junto ao Pai. Ário dizia o contrário. Isso pode nos parecer uma infantilidade, mas no fundo estava em jogo a divindade do Verbo. Ário dizia que o Verbo não era Deus, mas somente a primeira de suas criaturas. [...] Alexandre dizia que o Verbo, por ser divino, não era criatura, mas sempre existira com Deus. (GONZÁLEZ, 2011, p. 166)[3].

A fim de solucionar tal embate, o imperador Constantino convoca uma grande assembléia na cidade de Nicéia, onde todos os bispos cristãos deveriam apresentar-se. A reunião ocorreu em 325 a.D. e estima-se que cerca de 300 bispos estiveram presentes. Este ficou conhecido como o primeiro concílio ecumênico.

            O resultado deste concílio foi uma vitoria esmagadora da posição defendida por Alexandre, atribuindo à posição proposta por Ário – o arianismo, a qualificação de heresia.
Resultou também deste concílio o Credo de Nicéia:

Cremos em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis.
E em um só Senhor, Jesus Cristo, o Filho de Deus; gerado como o unigênito do Pai, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus; Luz da Luz; verdadeiro Deus de verdadeiro Deus; gerado, não criado; consubstancial [homoousios][4] ao Pai; mediante o qual todas as coisas vieram a existir, tanto as que estão nos céus quanto as que estão na terra [...] (ibidem, pp. 169,170 – grifos meus)

Uma das idéias mais difundidas, principalmente entre o senso comum, a fim de qual seria o papel fundamental da história seria a de que ela daria a condição ao homem de não cometer os mesmos erros do passado. Dentro de uma concepção histórica secular (vamos chamar assim), esta definição seria um tanto paupérrima e ingênua, contudo não vamos entrar em pormenores historiográficos. Vamos considerar tal definição como sendo adequada, visto que estamos tratando de história eclesiástica, e o que se espera dos cristãos contemporâneos é que eles examinem o passado, se espelhem nos cristãos primitivos e nos pais da igreja e não cometam os mesmos erros que alguns já cometeram.

Ao que parece, nem todos pensam assim, ou por falta de conhecimento ou por escolha mesmo. Recentemente o líder da Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD), o “Apóstolo” Valdemiro Santiago publicou um pequeno texto no site oficial da IMPD, intitulado Entregue-se a Jesus. Vejamos um pequeno trecho do que ele afirma:

Muita gente pela tradição da religião, não entende a historia de Jesus. Alguns falam de natal, mas ninguém sabe o dia exato em que Jesus Cristo nasceu. Segundo que Jesus já existia muito antes de tudo. Ele é a imagem do Deus invisível, a encarnação do verbo. Mas ele não é sempiterno, é eterno. O pai que é Deus é sempiterno, aquele que antes dele nunca existiu como ele, nem existirá depois dele, sempre existiu e sempre existirá. A primeira obra dele foi Jesus Cristo, não a partir de Maria, que foi obra do Espírito Santo para ser feito carne, antes ele já existia. “Façamos” é no plural, porque Jesus estava com Ele e a palavra que lemos confirma. (SANTIAGO, 2012 – grifo meu)[5]

O fato é que este Jesus, a que se refere o “apóstolo”, não é o Jesus pregado pelos verdadeiros apóstolos, nem pelos pais da igreja, nem pelos reformadores. Este Jesus é uma pobre criatura. Não é Deus. E não sendo Deus, de forma alguma nos poderia salvar, como afirma o Catecismo de Heidelberg: “Porque, somente sendo verdadeiro Deus, Ele pode suportar, como homem, o peso da ira de Deus, e conquistar e restituir, para nós, a justiça e a vida”[6]. Este é o Jesus de Ário e de seu arianismo[7]. É o erro que volta a se repetir. Não se entreguem a este Jesus pregado pelo senhor Valdemiro Santiago, pois ele nada pode fazer por você! Entreguem-se sim, ao Jesus da Bíblia, que o apóstolo João chama de Deus, o Verbo encarnado (Jo 1:1-3); que recebe o título divino de Senhor através do apóstolo Paulo (Fp 2:9-11); que é capaz de perdoar pecados [o que somente Deus pode fazer] (Mc 2:1-12); em quem, corporalmente, habita toda a plenitude da Divindade (Cl 1:19); aquele do qual Tomé confessa em adoração: “Senhor meu, e Deus meu” (Jo 20:28 – ACF)[8].


Notas



[1] Irineu de Lião apud Justo L. González
GONZÁLEZ, Justo L. História ilustrada do cristianismo: a era dos mártires até a era dos sonhos frustrados. 2ª ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 64.

[2] SPROUL, R. C. Verdades essenciais da fé cristã. 1º caderno. 3ª ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.

[3] GONZÁLEZ, Justo L. História ilustrada do cristianismo: a era dos mártires até a era dos sonhos frustrados. 2ª ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2011.

[4] Homoousios – isto é, da mesma substância, essência, com o Pai.
Para maiores detalhes: BERKHOF, Louis. A História das doutrinas cristãs. São Paulo: Editora PES, 1992. p. 80

[5] SANTIAGO, Valdemiro. Entregue-se a Jesus. São Paulo, [2012]. Disponível em: <http://www.impd.org.br/portal/mensagens_impd.php?id=49>. Acesso em: 21 jan. 2012.

[6] URSINO, Zacarias; OLEVIANO, Gaspar. Catecismo de Heidelberg, [2009]. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/catecismos/catecismo_heidelberg.htm>. Acesso em: 21 jan. 2012.

[7] Igualmente, as Testemunhas de Jeová ensinam que Jesus foi o primeiro ser criado por Jeová e que ele era o arcanjo Miguel.
Para maiores detalhes: Ferreira e MYATT, Allan. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 485

[8] A versão utilizada neste artigo é a Almeida Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original (ACF) publicada pela Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

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