• Em 2018 o evento contará com a presença de um grande número de preletores, entre eles o pastor estadunidense Paul Washer que é o diretor e coordenador de Missões da "Sociedade Missionaria HeartCry".
  • "Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos". (Sl 119.105)
  • "Orai sem cessar. Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. Não apagueis o Espírito". (1Ts 5.17-19)
  • "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé". (Rm 1.16,17)
  • "[...] exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos". (Jd 3)

domingo, 17 de setembro de 2017

Lutando contra o abatimento


Por Karoline Evangelista
Baseado no capítulo 7 do livro “Lutando contra a incredulidade” do John Piper


“A minha carne e o meu coração desfalecem; mas Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre” (Sl 73:26).


Complexo abatimento, que triste é o seu som, soando de um coração cristão, cujos olhos revelam a desarmonia interior. Não se limita à depressão e não é uma simples melancolia temporária, decorrente de um dia ruim. Quanto a depressão, há pessoas que possuem certa predisposição, seja devido a causas genéticas, fatiga ou outras questões de ordem fisiológica, e mesmo, depois de convertidas, elas precisarão lutar contra esse mal. Não é possível dividir o homem de forma a separar o físico do espiritual; sejam quais forem as causas do abatimento, a arma que provoca rendição à tal estado é a incredulidade na graça futura. É preciso erguer-se e lutar! Mas como? O abatimento é um gelo que esfria a alma, queima a pele, e adormece o vigor, é como o céu cinza da poluição, que embaça a visão e dificulta a respiração, é uma sombra negra ou um fantasma branco, odeia cores e ama algemas.

Davi enfrentou o abatimento: “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim?” (Sl 42.11a). Ele não se rendeu, mas estendeu a sua espada: “Espera em Deus, pois ainda o louvarei, o qual é a salvação da minha face, e o meu Deus” (Sl 42.11b). Davi negou dar ouvidos ao seu eu abatido, ele pregou à sua alma, criticou seus pensamentos, fê-los assentar e ouvir a Palavra de Deus.

Jesus enfrentou o abatimento: “A minha alma está cheia de tristeza até a morte” (Mt 26.38). Ele lutou, utilizando algumas armas, a saber: pediu a companhia de seus amigos mais chegados (cf. Mt 26.37), expôs a eles a sua dor (cf. v. 38), pediu intercessão (cf. v. 38), orou ao Pai (cf. v. 39), descansou na soberana vontade de Deus (cf. v. 39). O autor aos Hebreus nos afirma que: Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus” (Hb 12.2).

Como enfrentamos o abatimento? Os livros de autoajuda flutuam sobre a superfície, não alcançam a profundidade da alma, no máximo massageiam o ego com suas plumas. Precisamos pôr de joelhos, o nosso eu, diante da Palavra de Deus e a fé nas Suas promessas fortalecerá os nossos corações. Há uma paz plena e eterna, há uma glória futura, há esperança! Em Deus, que é a nossa herança, “há fartura de alegrias e delícias perpetuamente” (Sl. 16.11). Certamente, a fé na graça futura nos concederá um prelúdio do supremo prazer celestial.

Sejam felizes, em Cristo!




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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Garoto australiano de 12 anos “muda de sexo” e se arrepende dois anos depois

Com apenas 12 anos de idade, Patrick Mitchell implorou a sua mãe para dar início aos tratamentos hormonais depois que os médicos o diagnosticaram com disforia de gênero – uma condição em que uma pessoa experimenta sofrimento porque há uma incompatibilidade entre seu sexo biológico e sua identidade de gênero.

"Você deseja mudar tudo sobre você, você vê qualquer garota e diz que seria capaz de matar para ficar daquele jeito", disse Mitchell ao site '60 Minutes' sobre o que sentia na época em que quis mudar de sexo.

Depois de receber o conselho de profissionais que sugeriram que era uma escolha certa, Mitchell começou a transição e recebeu total apoio de sua mãe.

Ele deixou o cabelo crescer e começou a tomar os hormônios, o que fez com que seus seios logo se desenvolvessem. Porém, dois anos depois, Mitchell passou a questionar se havia feito a escolha correta.

A crise se acentuou no início de 2017, quando os professores de sua escola começaram a se referir a ele como uma menina.

"Comecei a perceber que estava realmente confortável no meu corpo. Todos os dias eu me senti melhor ", disse ele ao Now To Love.

Como resultado, Mitchell confiou procurou a sua mãe e explicou que queria reverter o processo.

"Ele me olhou nos olhos e disse: ‘Não tenho certeza de que eu sou uma menina’", afirmou sua mãe.

Agora, em uma tentativa de voltar ao seu corpo original, ele parou de tomar sua medicação e está prestes a ter uma operação para remover o excesso de tecido mamário que será o estágio final de sua transição.


Com informações Independent.co.uk

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Após atacar cristãos e promover pedofilia e zoofilia, Santander cancela exposição “Queermuseu”

A exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, realizada desde 15 de agosto no Santander Cultural, em Porto Alegre, um símbolo do ultraje e do nojento. Intitulada Queermuseu, suas obras exaltam a sexualização de crianças, promovem abusos de animais e profanam imagens sagradas ao Cristianismo, foi cancelada após protestos em redes sociais.

A teoria Queer, que dá a fundamentação ideológica por trás da exposição, defende que a sexualidade é uma construção social desvinculada da natureza humana e considera a expressão sexual em crianças algo natural e bonito. A revista Psychological Bulletin, adepta da ideologia, sugere inclusive a substituição do termo “pedofilia” por “intimidade intergeracional” como forma de acabar com a conotação negativa da sexualização infantil. A teria faz parte da visão ideológica desconstrutivista e busca a destruição dos valores morais em que a nossa cultura foi fundada.

Fotos da exposição mostravam imagens de Jesus Cristo e santos profanadas com pinturas, maquiagem e outros símbolos. Hóstias utilizadas na Santa Ceia dos cristãos receberam inscrições como “língua” e “vagina”.

Um grupo já está organizou um processo criminal contra os responsáveis, alegando que, no Código Penal, vilipendiar objeto de culto fere o artigo 208, expor obscenidades fere o artigo 234 e fazer apologia à pedofilia e à zoofilia fere o artigo 287.

O projeto foi apoiado pelo Ministério da Cultura, patrocinado pelo Santander, realizado pelo Santander Cultural e pelo Governo Federal e produzido pela Rainmaker Consultoria de Imagem, Projetos e Produções foi autorizada a captar até R$ 850.560,00.

Em nota, o centro cultural diz: “Ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição ‘Queermuseu’ desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo”.

Leia a nota do Santander Cultural:

“Nos últimos dias, recebemos manifestações críticas sobre a exposição “Queermuseu – Cartografias da diferença na América Latina”. Pedimos sinceras desculpas a todos os que se sentiram ofendidos por alguma obra que fazia parte da mostra.

O objetivo do Santander Cultural é incentivar as artes e promover o debate sobre as grandes questões do mundo contemporâneo, e não gerar qualquer tipo de desrespeito e discórdia.

Nosso papel, como um espaço cultural, é dar luz ao trabalho de curadores e artistas brasileiros para gerar reflexão. Sempre fazemos isso sem interferir no conteúdo para preservar a independência dos autores, e essa tem sido a maneira mais eficaz de levar ao público um trabalho inovador e de qualidade.

Desta vez, no entanto, ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição “Queermuseu” desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo.

Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana. O Santander Cultural não chancela um tipo de arte, mas sim a arte na sua pluralidade, alicerçada no profundo respeito que temos por cada indivíduo. Por essa razão, decidimos encerrar a mostra no domingo, 10/09.

Garantimos, no entanto, que seguimos comprometidos com a promoção do debate sobre diversidade e outros grandes temas contemporâneos.”


Com informações Consciência Cristã News

domingo, 10 de setembro de 2017

O Protagonismo Feminino nos Primórdios do Protestantismo Brasileiro


Por Sebastiana Lima (Diana)

1. Introdução


A história da Religião Cristã é a história do protagonismo masculino, assim como a história da filosofia e de outros saberes. Quando fazemos esse tipo de afirmação, tendemos a receber a réplica, de que estamos usando um discurso feminista, contudo, não é necessário ser mulher, nem feminista, para concluir que a mulher ao longo da história, mesmo sendo capacitada, nem sempre teve espaço para ser sujeito da história.

No intuito de conhecer mais acerca do protagonismo feminino no protestantismo brasileiro no final do século XIX, surgiu a oportunidade de realizarmos essa pesquisa, que ainda é introdutória, mas, pretende abordar um pouco acerca dos aspectos históricos que circundam o universo feminino envolvido no processo de implantação das bases do Protestantismo no Brasil.

É inegável o papel da mulher na história de todas as instituições, culturas, religiões, etc, na história do Brasil, também, a mulher teve um papel significativo, pensando nisso iremos conhecer um pouco acerca de algumas mulheres que tiveram papel preponderantemente importante na história do protestantismo no Brasil.

No que tange ao conhecimento teológico, o homem sempre teve prioridade. À mulher, não cabia a necessidade de conhecimento, até porque a sua função no reino dos homens era de cunho inferior, estudar seria algo de pouca valia. Isso é bem antigo, por exemplo, desde o séc. XIII vemos que a participação da mulher na escrita se dá de forma “ativa com Heloísa[1], ela tinha uma educação incomum para as mulheres da sua época” MARINHO, (2013, p.3), também com outras duas mulheres, diferentes de Heloísa, entretanto, seres humanos com inteligência e capacidades cognitivas semelhantes aos homens:

Hildegard von Bingen, monja beneditina que deixou uma obra considerável que aborda, dentre outras áreas do saber, a teologia, a filosofia, a música e a exegese. E, por fim, Marguerite Porete, beguina, autora de Le moiroeur dês simples ames[2], escrito possivelmente em meados de 1290 e que aborda, numa visão mística, o amor e a liberdade; livro com o qual a autora foi queimada em praça pública em 10 de junho de 1310. MARINHO, (2013, p.3)


Falar acerca de mulheres que ousaram pensar, fazer teologia e expressar o desejo de liberdade feminina, é um assunto que agride o universo do reino dos homens, marcado pelo desprezo pelo feminino e o cerceamento de qualquer grau de liberdade expresso pelas mulheres. Adentramos um pouco a exemplos como o de Heloísa, Hildegard e a beguina[3] Marguerite Porete, para ilustrarmos um pouco o papel da mulher no universo da escrita e da Teologia, entretanto, o alvo dessa breve investigação é conhecer o papel de algumas mulheres protestantes, do período imperial brasileiro, que se destacaram como modelo de conhecimento, trabalho e dedicação a obra cristã.  


2. A escassez de menção de nomes femininos na história da Reforma Protestante

Sabemos que os reformadores tiveram sua importância pelo seu trabalho e conteúdo teológico e doutrinário que produziram e isso é notável, mas nesse contexto também tiveram mulheres que participaram. Não somente as esposas, também algumas missionárias solteiras, ou ex-religiosas da Igreja Católica Apostólica Romana convertidas ao Protestantismo.

Mas a história contada é a dos que lograram êxito, de heróis, reis e poderosos, a mulher do período Antigo, Medieval e no Brasil Imperial, não tinha metade do espaço que conquistou na história dos dias atuais. Para embasar esse argumento vejamos o que a professora Rute Salviano Almeida diz:

A história positivista, escrita por mãos masculinas e enfocando grandes acontecimentos e personagens, esqueceu ou não se importou de mencionar a participação das mulheres na reforma religiosa do século XVI. Foram poucas e pequenas as menções a elas. Portanto, para uma escrita mais verdadeira da História é necessário resgatar essa valiosa contribuição feminina, porque quando a história é contada pela metade não está completa. ALMEIDA, (2017).
     
Para que a História seja completa, necessita-se de mencionar seus autores e seus personagens, à medida que são esquecidos ou omitidos, têm-se uma história de entremeios, entrecortada pelo preconceito.

Um fato interessante é o seguinte: ao sermos indagados sobre os nomes dos Reformadores, no ato respondemos: Lutero, Calvino, Zwínglio, Jonh Knox... Mas, esquecemos que nem só de homens se faz a história, nesse conjunto de reformadores, existiram vozes femininas, mãos e atitudes que ajudaram a construir todo esse edifício historiográfico.

A participação das mulheres na Reforma, não se deu através de grandes tratados teológicos, mas, segundo Almeida, (2017):

Contudo, embora relevante, a participação feminina no movimento foi diferente, pois não produziu grandes tratados teológicos e nem atuou em sérios debates. As mulheres preferiram uma abordagem mais branda, através de uma literatura mais íntima. [...] Suas vozes eram ouvidas através de suas frases.

Rute Salviano Almeida,[4] cita cinco mulheres que tiveram suas vozes ouvidas na Reforma, são: Marie Dentière[5], Catherine Zell[6], Árgula von Grumbach[7], Margarida de Navarra[8], Joana D’Albret[9]. Diante disso podemos de fato perceber, que foram mulheres que souberam cumprir seu papel de maneira digna, virtuosa, sendo promotoras da própria história, sem precisar ficar nos bastidores, da História.


3. A mulher cristã e os estudos

Quando pensamos em educação na contemporaneidade, ficamos imaginando as mulheres que viveram no século XIX e as dificuldades que tiveram para acessar o conhecimento. O Brasil desse período, não oferecia recursos à educação pública, a imagem de escola que temos na nossa cabeça fica longe do que era de fato o conceito de escola.

No que tange aos protestantes que vieram ao Brasil, oriundos da Europa e da América do Norte, eles faziam uso da imprensa e produziam folhetos de cunho educativo. Estava no âmago da Reforma Protestante, o uso da leitura para facilitar a compreensão das Escrituras e não mais serem mediados pelos sacerdotes católicos, como era praticado pelo catolicismo. Com essa necessidade, deu margem ao surgimento das Escolas de Primeiras Letras, motivadas pelo ideal reformador de alfabetização na língua materna.

Dentro dessa perspectiva, iremos destacar o trabalho de algumas mulheres, protestantes estrangeiras, que tiveram destaque na educação. Não somente na educação, contudo, desempenharam diversos papéis de maneira que fizeram história com sua maneira de agir nos mais diversos contextos sociais e culturais.


4. Três mulheres que fizeram história no brasil império

4.1. Sarah Kalley

Sarah Poulton Wilson, nasceu em Nottingham na Inglaterra em 1825, desde a sua juventude já era uma mulher à frente do seu tempo.

Aos dez anos de idade Sarah foi enviada a um internato (com rígidos princípios puritanos) que ficava localizado próximo à cidade de Fairfield, onde morava sua avó paterna. Sarah passou seis anos na instituição preparando-se para o exercício de seus futuros ministérios: pianista, musicista, pintora, poetisa e poliglota, e tinha muita habilidade para ensinar. CARDOSO, (2001, p. 100).

O primeiro ministério de Sarah foi na igreja Congregacional de Torquay, em 1855 casou-se com Robert Reid Kalley e assume novo campo missionário, o Brasil. Sarah era uma mulher extremamente inteligente, de acordo com Cardoso: “preparava sermões para serem lidos nos púlpitos pelos presbíteros da Igreja e até mesmo para o Sr. Kalley” (Cardoso, 2005, 205 – 208).

Sara Poulton Kalley, escreveu o livro A Alegria da Casa em 1866, esse livro é rico em ensinamentos para a vida cotidiana, administração da casa, normas de higiene, economia doméstica, preparação das moças para o casamento. É uma maneira prática de valorizar as mulheres e romper com o estigma de mulheres frágeis e fúteis.

4.2. Marta Watts

Marta Watts foi a primeira educadora do metodismo no Brasil,

Martha Watts veio para o Brasil para educar mulheres; esta foi a missão que a Sociedade Missionária da Mulher lhe designou, ou, melhor dizendo, para a qual Martha se candidatou. Assim, pois, é necessário que se diga duas ou três palavras sobre a situação da mulher na sociedade brasileira do final do século XIX, quando Martha Watts aportou no Rio de Janeiro trazendo na bagagem sua tarefa de ensinar, num país estranho, de língua desconhecida, distante física e culturalmente de sua “América”.  Durante todo o século XIX, as mulheres brasileiras estiveram submissas a pais e maridos. Esta submissão, entretanto, não implicava na falta de importância da mulher. Embora dependente dos homens o papel da mulher era bastante significativo na sociedade. Quando falamos na mulher do final do século XIX no Brasil, queremos nos referir à mulher da elite. Numa sociedade agrária e escravocrata, fora das elites, existiam apenas as criadas e um pouco mais tarde as negras recém-libertas. MESQUITA, (p. 100).
           
A mulher do final do século XIX, período que Marta Watts viveu era uma sociedade de elite. Marta estava inserida no seio da elite, fora desse contexto, subsistiam as criadas e mais adiante as negras que foram libertas. “A vida social no Brasil, nesse período, girava em torno de recepções, saraus, e festas familiares. Nesses eventos, discutiam-se e fechavam-se negócios, arrumavam-se casamentos, firmavam-se as posições sociais” MESQUITA, (p. 100).

4.3. Carlota Kemper

Carlota Kemper é uma daquelas mulheres cristãs que merecem ser citadas, seu esforço e seu trabalho foram um marco na história das missionárias cristãs que vieram ao Brasil com um propósito de servir ao povo com seus dons.

No ano de 1882, uma educadora, já em idade avançada, vem para o Brasil como missionária da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos se tornando diretora do departamento de meninas do Colégio Internacional sediado em Campinas. Essa missionária, D. Carlota Kemper, ajudou a fundar o atual Colégio Gammon e trabalhou na missão como educadora até a sua morte com 90 anos de idade, dedicando grande parte da sua vida à obra missionária. ARANTES, (p.1).


De acordo com Arantes, (p.1):

A obra presbiteriana em solo brasileiro só foi possível devido aos investimentos das Igrejas norte-americanas. O missionário pioneiro [...] foi Ashbel Green Simonton, [...] chegou ao Rio de Janeiro, em 1859, e nessa primeira década vários outros missionários vieram ao Brasil pregar a “Palavra de Deus” e como parte fundamental do seu trabalho: criar escolas. Para esses protestantes, parte de sua missão era “civilizar” a terra que para “Deus” conquistavam, educando homens e mulheres que promoveriam o progresso da Nação. ARANTES, (p. 2).
           
Diferentemente da abordagem católica, os protestantes reformados, entre eles os presbiterianos, tinham a preocupação com a educação do povo, vinham com esse conceito muito certo, para promoverem o progresso da nação. Nesse ideal

[...] em 1882, a educadora Carlota Kemper veio para o Brasil como professora do Colégio Internacional e missionária, já possuindo a responsabilidade de liderar o departamento de meninas. Nessa época, Carlota estava com 45 anos, tendo trabalhado a maioria deles como professora em diversos colégios dos Estados Unidos. ARANTES, (p.2).



Considerações finais

É preciso entender que homem e mulher foram criados à imagem de Deus, conforme o texto de Gênesis 1.27, portanto, ambos gozam da mesma dignidade e importância diante de Deus, como pessoa. A Bíblia também garante que homens e mulheres têm o mesmo acesso às bênçãos da salvação. Jesus Cristo, no seu ministério terreno, conferiu muito respeito e dignidade às mulheres. É importante ressaltar que a igreja contemporânea, às vezes, erra por falta de conhecimento, talvez pelo machismo que está culturalmente instalado na mente de uma grande parte dos homens, os quais muitas vezes ocupantes dos cargos de liderança.
             Com esse estudo pudemos compreender um pouco sobre o protagonismo feminino nos primórdios do protestantismo brasileiro. O Brasil recebeu mulheres oriundas de outras nações que, mesmo imersas em uma cultura de domínio masculino, não desistiram de se colocar como sujeitas da própria história, não esperaram que alguém oferecesse um espaço para a sua atuação.
            É possível, a partir de investigações como essas, dialogar com o contemporâneo e entender os embates entre homens e mulheres do nosso tempo. Vivemos em uma sociedade bem diferente, as mulheres cristãs protestantes são bem distintas da Sarah Kalley, de Marta Watts e Carlota Kemper, mas enfrentam preconceito, convivem com desafios de um país capitalista em que precisam enfrentar triplas jornadas de trabalho: casa, trabalho, filhos, estudo, vida espiritual, esposo...
            A mulher intelectual ainda enfrenta a postura radical de boa parte dos homens cristãos. Ainda convive com os olhares críticos que Marguerite Porete, Heloísa e Hildegard conviveram, embora, em contextos muito distintos. O espaço feminino no universo eclesiástico é como se fosse cedido, favorecido a quem não tem competência para ocupá-lo, qualquer notoriedade feminina que rompa com o padrão normal de “mulher correta é mulher calada”, já soa à competição. Claro que existem muitos problemas relativos a núcleos femininos que se tornaram feministas e buscaram uma identidade de gênero semelhante ao Estado laico, não é desse universo que estamos falando.
            O que importa é que esse tema está sendo abordado a partir de uma perspectiva histórico-crítico, servindo de pano de fundo para futuras investigações e maior aprofundamento. Aqui iniciamos, provocamos, em outra oportunidade podemos reincidir no assunto, afinal é um mote polêmico que tem muito a ser investigado.
  



NOTAS


[1] Heloísa é mais conhecida pela sua relação com Pedro Abelardo. Ela era uma brilhante estudiosa de grego, latim e hebraico e tinha a fama de ser muito inteligente, além de ter um dom imenso para a escrita e a leitura. Ela se tornou aluna de Pedro Abelardo, que foi um dos mais populares professores e filósofos de Paris.
[2] Tradução: O Espelho das Almas Simples e Aniquiladas e que permanecem somente na vontade e no desejo do Amor.
[3] O Movimento das Beguinas situa-se num período denso de inventividade cultural protagonizada por figuras e organizações femininas. A partir da Bélgica, e estendendo-se por outros países europeus, o Movimento das Beguinas pontificou durante os últimos séculos da Idade Média, numa Europa marcada pela presença insubmissa e contestatária de mulheres – santas, sábias, guerreiras -, cuja influência se estende para além da Idade Média. CALADO, 2012.
[4]  Vozes Femininas na Reforma. ALMEIDA, (2017)
[5] [...] Teve seu nome inscrito no muro dos reformadores em Genebra, em 2002. Ex-prioresa das agostinianas, após ficar viúva, casou-se com o companheiro de Farel, o reformador Froment, com quem foi para Genebra defender a causa reformista. A carta que escreveu para rainha Margarida de Navarra foi considerada um tratado teológico. ALMEIDA, (2017).
[6]  [...] esposa do pastor luterano Matheus Zell, escreveu panfletos para propaganda da Reforma. Com inteligência e sabedoria, ela confrontava perspicazmente com a Bíblia a doutrina do sacerdócio de todos os crentes. ALMEIDA, (2017).
[7] Bávara erudita, escritora de panfletos, que defendeu veementemente a Reforma e os reformadores. Em sua apologia argumentou à Universidade de Ingolstadt: “Vocês desejam destruir toda a obra de Lutero. Nesse caso destruiriam o Novo Testamento que ele traduziu. Nos escritos de Lutero e Melanchton, não existe nenhuma heresia [...]. ALMEIDA, (2017).
[8] Irmã do rei Francisco I da França e esposa do rei Henrique II de Navarra. Ela acolheu em seu reino reformadores e eruditos perseguidos, entre eles o próprio Calvino. Entre suas obras, encontram-se um poema espiritual: O Espelho das almas pecadoras e um livro de contos O Heptameron, no qual denunciou a imoralidade de clérigos que, indignados, tentaram matá-la. Fez mudanças eclesiásticas em seu reino: celebração da ceia em duas espécies, cultos na língua do povo, abolição do celibato e das roupas litúrgicas dos ministros. Seu maior destaque, contudo, foi sua grande humanidade, a ponto de preferir ser chamada a primeira-ministra dos pobres. ALMEIDA, (2017).
[9] Filha de Margarida de Navarra e mãe do rei Henrique IV, que concedeu a liberdade religiosa na França. Foi a reformadora do seu reino e líder dos huguenotes. Ela confiscou os bens da igreja e distribuiu aos pobres, aboliu as procissões públicas, retirou imagens e suprimiu missas. Fundou a Faculdade em La Rochelle, um centro de piedade evangélica. ALMEIDA, (2017).




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Rute Salviano. Vozes Femininas na Reforma. Disponível em: <http://www.ultimato.com.br/conteudo/vozes-femininas-na-reforma> Acessado em 24 de maio de 2017.

ARANTES, Thaís Batista de Andrade.  Carlota Kemper: uma educadora esquecida (1882-1927).  Disponível em: < www.cogeime.org.br/revista/cap1120.pdf>. Acessado em 24 de maio de 2017. 20:14 h.

CALADO, Alder Júlio Ferreira. O Movimento das Beguinas: Interfaces e ressonâncias em experiências sócio-religiosas femininas do presente, 2012. Disponível: < http://consciencia.net/o-movimento-das-beguinas-interfaces-e-ressonancias-em-experiencias-socio-religiosas-femininas-do-presente/> Acessado em 24 de maio de 2017, 13:25 h.

CARDOSO, Douglas Nassif. Robert Reid Kalley: Médico, missionário e profeta. São Bernardo do Campo, SP:  Ed. Do autor. 2001.

______. Cotidiano Feminino no Segundo Império. São Bernardo do Campo, SP. Ed. Do Autor.

MARINHO, Maria Simone Nogueira. A Escrita Feminina Medieval: mística, paixão e transgressão. Mirabília: Revista Eletrônica de História Antiga e Medieval. 23 p.

MESQUITA , Zuleica de Castro Coimbra Mesquita. Martha Watts: uma educadora metodista na belle époque tropical. Disponível em:<www.cogeime.org.br/revista/cap1120.pdf> Acessado em 24 de maio de 2017.
  



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domingo, 3 de setembro de 2017

O fundamento da espiritualidade


Por Rafael de Lima

“Qual o fundamento da espiritualidade? ”, se lançarmos mão desta pergunta é possível que obtenhamos um variado número de respostas. Quem sabe alguém nos diga que o fundamento da espiritualidade é a oração, outro que este fundamento seja a boa teologia, um terceiro que seja a atividade missionária e, mais algum, que seja o serviço cristão (certamente essa lista poderia ser acrescida de outros itens). Quem negaria que oração, boa doutrina, atividade missionária e serviço cristão, não sejam elementos de destaque na vida de piedade de um cristão? Absolutamente ninguém! Mas, deixe-me colocar da seguinte forma: é possível que oração, boa doutrina, atividade missionária e serviço cristão sejam não exemplos de piedade, mas de iniquidade.

Em seu mais famoso sermão, Jesus condena veementemente a oração hipócrita: "E quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros. Eu lhes asseguro que eles já receberam sua plena recompensa”. (Mt 6.5 – NVI); Tiago nos adverte em relação a possuirmos uma teologia divorciada da vida, uma doutrina distante da piedade, possuirmos uma ortodoxia morta: “Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos”. (Tg 1.22 – NVI); Paulo, quando escrevia aos cristãos de Filipos, afirma que muitos pregavam por motivos errados: “É verdade que alguns pregam a Cristo por inveja e rivalidade, mas outros o fazem de boa vontade. [...] Aqueles pregam a Cristo por ambição egoísta, sem sinceridade, pensando que me podem causar sofrimento enquanto estou preso”. (Fl 1.15,17 – NVI); Jesus, novamente, condena o serviço realizado com motivação errada: "Tenham o cuidado de não praticar suas ‘obras de justiça’ diante dos outros para serem vistos por eles. Se fizerem isso, vocês não terão nenhuma recompensa do Pai celestial. Portanto, quando você der esmola, não anuncie isso com trombetas, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem honrados pelos outros. Eu lhes garanto que eles já receberam sua plena recompensa”. (Mt 6.1,2 – NVI). Essas são apenas algumas referências, é possível encontrar outras nas Escrituras.

Eu consigo enxergar nesses exemplos sempre uma raiz de orgulho, de autopromoção, de autoelogio. Eu posso orar de forma que os outros vejam quão grande intercessor eu sou, que olhem para mim e concluam: “este é um grande homem de oração”, e isto pode me trazer satisfação; eu posso evangelizar para que os outros vejam que sou um grande missionário e reconheçam isso; posso servir para que os outros enxerguem o meu trabalho; posso apresentar meus pressupostos teológicos para que os outros vejam quão pura é minha doutrina, quão ortodoxa é a minha mensagem. No âmago de tudo, nas reais motivações, serão encontrados o erro e a transgressão.

Por que elementos tão sublimes como oração, doutrina, evangelização e serviço, se transformaram, inesperadamente, em iniquidade? A resposta é: porque faltou-lhes aquela parte que é o fundamento, a base, o alicerce, faltou-lhes pobreza de espírito.

Essa é a simples proposição deste texto: o fundamento da espiritualidade é a pobreza de espírito. Perceba que este não é simplesmente um trocadilho de palavras, antes é um conceito fundado nas Escrituras. Sobre ele pretendo me ater um pouco a partir daqui.

Certamente vocês sabem que esta assertiva do Mestre inaugura o mais famoso sermão de todos os tempos – o Sermão do Monte. Ele nos ensina: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus”. (Mt 5.3 – ARC). É necessário, antes de tudo, esclarecer alguns equívocos que comumente surgem quando nos deparamos com o Sermão do Monte de Jesus e, com precisão, o comentarista Warren Wiersbe sintetiza:

O sermão do monte é de todas as mensagens de Jesus a mais mal interpretada. Uns dizem que é o plano de salvação de Deus e que, se desejamos ir para o céu um dia, devemos obedecer a suas regras. Outros o chamam de "tratado em prol da paz mundial" e instam as nações da Terra a aceitá-lo com o tal. Outros, ainda, dizem que o sermão do monte não se aplica aos dias de hoje, mas que valerá para um tempo futuro, talvez durante a tribulação ou no reino milenar.[1]

Todavia, a grande verdade que concluímos a partir do exame deste sermão de Jesus é que os bem-aventurados são os que foram regenerados. Essa lista não se aplica, sob nenhum aspecto, aos incrédulos, ainda que estes possam ser exemplo de moralidade e honestidade. As bem-aventuranças não são, absolutamente, um conjunto de regras que as pessoas possam seguir para tornar o mundo um lugar melhor. Do mesmo modo, elas não são uma realidade que terá cumprimento num futuro reino ainda a ser estabelecido. Não! As bem-aventuranças são uma realidade presente. Não são uma lista de prescrições a serem cumpridas. São, antes, uma lista de características dos que foram justificados pelo sangue do Cordeiro. Isso não é o que nós seremos, mas o que nós somos: bem-aventurados!

Feito esse esclarecimento inicial vejamos o que podemos aprender desta primeira beatitude. Preliminarmente, voltemos a atenção para a expressão “bem-aventurado”.

As bem-aventuranças não são simplesmente afirmações de felicidade, elas são, na verdade, empolgadas exclamações: "Que feliz é...!"; "Mais do que feliz...!"; "Como é feliz...!". Essa felicidade não diz respeito a algo que ainda acontecerá, que terá seu cumprimento num futuro distante. Ao contrário, essa felicidade cumpre-se, neste momento, na vida dos regenerados. Isto é uma realidade nas nossas vidas, não uma possibilidade! E o centro de onde emana essa alegria não tem relação com coisas, circunstâncias ou momentos; antes diz respeito a uma pessoa – Jesus Cristo!

As bem-aventuranças, com efeito, dizem: "Que felicidade é ser cristão! Que alegria seguir a Cristo! Que alegria conhecer a Jesus como Mestre, Salvador e Senhor!" A forma mesma das bem-aventuranças nos indicam que são exclamações de gozosa surpresa e radiante felicidade pela realidade da vida cristã. Em face das bem-aventuranças se faz impossível toda interpretação do cristianismo como uma religião triste e carente de entusiasmo contente.[2]

Em grego, bem-aventurado, é a palavra makários. Barclay destaca que makários diz respeito a uma alegria autossuficiente, que não é atingida pelas eventualidades da vida. Para os que não conhecem aquele que é a fonte real de alegria – Jesus Cristo – a felicidade vai resultar de certos momentos efêmeros da vida, que vão e voltam, que são hoje e amanhã não mais. A felicidade daqueles que estão em Cristo é independente de qualquer circunstância que a vida possa trazer à tona.

As bem-aventuranças nos falam dessa alegria que sai a nosso encontro até no meio da dor, aquela alegria que não podem manchar nem o sofrimento, nem a tristeza, nem o desamparo, nem a perda de algo ou alguém que queremos muito. É a alegria que brilha através das lágrimas e que nada, nem na vida nem na morte, pode arrebatar.[3]

Nada nem ninguém poderá arrancá-la de nós, e por quê? Porque a nossa alegria é Ele! E quem poderá nos separar (Rm 8.29-39)?

Dito isto, avancemos um pouco mais nesta beatitude. O que se segue a esta primeira exclamação de felicidade: “Como é feliz...!”, não poderia ser mais desconcertante ao mundo. É mais do que feliz não o próspero, não o saudável, não o que alcançou sucesso, não o poderoso, não! Como é feliz o pobre de espírito! Que distância entre a felicidade do mundo e a que Cristo oferece!   

            Quando nós analisamos mais minunciosamente a palavra em grego, se torna ainda mais evidente essa distinção. Em grego existem duas palavras que vão caracterizar a pobreza. A primeira palavra é penés. Ela diz respeito ao trabalhador, aquele que tem apenas o necessário, ele não é rico, não tem nada de supérfluo, mas não lhe falta o essencial para sobreviver (seria o caso de muitos de nós). Todavia, não é esta a palavra que aparece na passagem. A palavra grega empregada neste texto é ptojós, que vai caracterizar uma pobreza completa, absoluta. Diz respeito aquele que está “no fundo do poço”, na mais profunda miséria. Ela tem relação com a raiz ptoséin que evoca a ideia de alguém que está agachado, que encolhe o corpo. Ptojós nos fala daquele miserável que não tem forças sequer para erguer-se ao pedir a esmola, mas ajoelhado, encolhido, implora para que alguém lhe conceda algo e alivie a sua situação.[4]Penés descreve ao homem que não tem nada supérfluo; ptojós, em troca, descreve o homem que não tem nada”.[5] É sobre este que Jesus afirma: “bem-aventurado...!”.

O Dr. Lloyd-Jones vai dizer que não é uma eventualidade esta bem-aventurança ter sido disposta em primeiro lugar no sermão de Nosso Senhor. Ela é a fonte de todas as outras bem-aventuranças e, aplicando ao contexto deste pequeno escrito, ela é a fonte de toda a vida de piedade e de toda a espiritualidade.

[...] não é para surpreender que essa seja a primeira das bem-aventuranças, porquanto, conforme veremos, é evidente que ela serve de chave para a compreensão de tudo quanto vem em seguida. Não há que duvidar que essas bem-aventuranças foram arrumadas em uma sequência bem definida. Nosso Senhor não as colocou em suas respectivas posições por mero acaso, acidentalmente: antes, há nelas aquilo a que poderíamos denominar de sequência lógica e espiritual. Necessariamente, essa é a primeira das bem-aventuranças devido à excelente razão que ninguém pode entrar no reino de Deus, também chamado reino dos céus, a menos que seja possuidor da qualidade nela expressa. No reino de Deus não existe sequer um participante que não seja “humilde de espírito”. Essa é a característica fundamental do crente, do cidadão do reino dos céus; e todas as demais características são, em certo sentido, resultantes dessa primeira qualidade.[6]

Para desenvolvermos uma vida de piedade e de espiritualidade, antes de tudo, é necessário que reconheçamos que não possuímos nada. É necessário que nos esvaziemos de nós mesmos, de nosso eu, da força e da capacidade que achamos que somos detentores. O apóstolo Paulo nos ordena: “[...] enchei-vos do Espírito” (Ef 5.18b – ARA), porém como poderemos ser cheios do Espírito se estamos repletos de nós mesmos? O Dr. Lloyd-Jones, com a sabedoria de costume, nos diz que é sobre isso que trata essa primeira bem-aventurança: "[...] ela indica, realmente um esvaziamento, ao passo que as demais apontam para uma plenitude. Não poderemos ser cheios enquanto não formos primeiramente esvaziados".[7]

Vivemos dias em que os homens têm um conceito elevado sobre si mesmos, estão cheios de si, e isto se aplica não apenas aos incrédulos, mas aos crentes. Muitos cristãos dos nossos dias, sobretudo aqueles tidos como exemplo de espiritualidade, são apresentados em toda a sua grandeza e suntuosidade. Muitos arrogam títulos importantes para si, se apresentam como sendo padrão de espiritualidade, como sendo referência para que os outros possam seguir. Eles estão no centro, se mostram como sendo cheios de “poder”, cheios de “autoridade”. Se vangloriam de sua oratória e se envaidecem por levar auditórios ao êxtase. Eles criam um padrão de espiritualidade em que os “homens de Deus” são na verdade “super crentes”, nunca devem ser vistos em humilhação, em pobreza, em fraqueza. Devem ser vistos como grandes, com toda a pompa e com todos os holofotes. Eles dizem: “Olhem para mim, eu sou o padrão, eu conquistei isso através de muito esforço, muitas horas de dedicação, eu sou a referência de espiritualidade. Eu conquistei isso! ”. A grande verdade é que pessoas que pensam e agem desta maneira não compreenderam absolutamente nada a respeito do cristianismo. Na verdade, elas criaram um falso cristianismo para elas, que lhes serve para satisfazer os próprios interesses e que lhes exalta o ego.

A verdadeira espiritualidade é demonstrada em fraqueza, em debilidade, em dependência, em esvaziamento. Ela é demonstrada em reconhecimento de que em nós mesmos não possuímos nada, não podemos nada, não somos nada. Tudo o que possuímos é favor, é imerecido, é presente e não salário.

[...] o Sermão do Monte virtualmente nos diz: “Eis o monte que você precisa escalar, o elevado nível até onde você deve subir; e a primeira coisa que você precisa entender, ao comtemplar esse monte que lhe compete subir, é que você não pode fazer tal coisa sozinho, é que você, por si mesmo, é totalmente incapaz da façanha, e que qualquer tentativa nessa direção tão-somente serve de prova inequívoca de que você ainda não compreendeu o espírito desse sermão”.[8]

Mais do que feliz é o miserável em espírito, aquele que, agachado à beira do caminho, encolhido, sem forças para se pôr de pé, ergue apenas as mãos em busca do Senhor, que passa à beira do caminho, para que Ele lhe conceda algo. Mais do que feliz é aquele que reconhece que, em si mesmo, nada possui, ele é como um mendigo, encolhido à beira do caminho. Ele é totalmente dependente do Senhor, ele sabe que tudo o que possui é graça, tudo é presente não merecido, tudo é dádiva que ele não trabalhou para obter, tudo é favor daquele Mestre que vê o miserável agachado à beira do caminho e lhe estende a mão. Ele não possuía nada! Ele não era, nem mesmo, como o penés que não possuía nada de supérfluo, mas ainda tinha algo. Não! Ele é o ptojós, aquele que não possuía absolutamente nada. Todavia, agora, ele possui tudo! Tudo, porque tem o Mestre, tem a Cristo! Tem a maior e mais inestimável riqueza!

      Por fim, quem sabe não possa surgir a seguinte indagação: como alguém se torna “pobre de espírito”? Encerro com a sábia resposta do Dr. Lloyd-Jones:

A resposta a essa indagação é que não olhemos para nós mesmos, e nem comecemos a tentar fazer as coisas por nossas próprias forças [...]. Sim, olhe para Jesus Cristo; e quanto mais você fixar nEle os olhos, tanto mais você se sentirá nulo em si mesmo, e tanto mais “humilde de espírito” você se tornará. Olhe para Ele, continue olhando para Ele. Volva-se para a experiência dos santos, considere os homens que mais plenamente foram cheios do Espírito Santo e usados nas mãos de Deus. Porém, acima de tudo, olhe novamente para Cristo; e então você nada terá de fazer por si mesmo. Pois tudo já terá sido feito. Realmente, você não pode volver os olhos na direção de Cristo sem sentir sua absoluta pobreza e nulidade. E então você poderá dizer para o Senhor:

Nada trago em minha mão,
Só na Tua cruz me agarro.

Vazio, desamparado, nu e vil. Entretanto, Ele é o Todo-suficiente.

Sim, tudo quanto me falta em Ti encontro,
Oh, Cordeiro de Deus, venho a Ti.[9]





[1] WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento – Volume I. Santo André: Geográfica Editora, 2006, p. 23.
[2] BARCLAY, William. E-book. Comentário Bíblico do Novo Testamento: Mateus. Versão em português de domínio público, pp. 96,97.
[3] Ibidem, p. 97.
[4] Ibidem, p. 98.
[5] Idem.
[6] LLOYD-JONES, D. Martyn. Estudos no Sermão do Monte. São Paulo: Editora Fiel, 1999, p. 37.
[7] Idem.
[8] Ibidem, p. 38.
[9] Ibidem, pp. 46,47.



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